Superintendente da Suframa, Leopoldo Montenegro, fala sobre o desempenho do Polo Industrial de Manaus, a expansão de novos segmentos, os impactos das mudanças climáticas e as estratégias para fortalecer a Zona Franca.
O Polo Industrial de Manaus (PIM) mantém trajetória de crescimento em 2026 e chega a um novo momento de transformação, com avanço em setores estratégicos e expansão de segmentos que ampliam a diversificação da indústria amazonense. Entre janeiro e maio, o polo alcançou faturamento de R$ 99,64 bilhões, resultado que reforça o peso da Zona Franca de Manaus na geração de empregos, renda e desenvolvimento econômico na região.
Ao mesmo tempo em que celebra os resultados, a indústria enfrenta desafios que vão da infraestrutura logística às condições climáticas da Amazônia, que podem afetar o transporte de insumos e produtos. Em entrevista ao formato ping-pong, o superintendente da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), Leopoldo Montenegro, analisa o desempenho do PIM e os caminhos para preservar sua competitividade.
Na conversa, Montenegro aborda ainda as perspectivas para a indústria farmacêutica, o avanço da mobilidade elétrica, os efeitos dos eventos climáticos sobre a logística regional e as medidas adotadas para garantir a continuidade e a expansão das empresas instaladas na Zona Franca de Manaus.
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EM PAUTA: O Polo Industrial de Manaus registrou faturamento de R$ 99,64 bilhões entre janeiro e maio de 2026. Como a Suframa avalia esse desempenho e quais fatores contribuíram para esse resultado?
SUPERINTENDENTE DA SUFRAMA LEOPOLDO MONTENEGRO: A Suframa avalia esse desempenho de forma muito positiva. O faturamento de R$ 99,64 bilhões nos cinco primeiros meses de 2026 demonstra a solidez, a resiliência e a capacidade de adaptação do Polo Industrial de Manaus (PIM) diante das transformações da economia nacional e internacional.
Esse resultado está associado ao desempenho de segmentos tradicionais e estratégicos do Polo, especialmente os setores eletroeletrônico e de duas rodas, à manutenção da demanda nacional, aos investimentos realizados pelas empresas e ao contínuo processo de modernização tecnológica das linhas de produção.
Também é importante destacar o amadurecimento do planejamento empresarial, inclusive no campo logístico, com estratégias de antecipação de insumos e organização de estoques diante da sazonalidade dos rios amazônicos
Mais do que o faturamento isoladamente, observamos um conjunto de indicadores que demonstra que o PIM permanece competitivo, gerando emprego, renda, investimentos e desenvolvimento tecnológico para a Amazônia e para o Brasil.
EM PAUTA: Quais setores do PIM tiveram maior participação nesse crescimento e quais segmentos apresentam as melhores perspectivas de expansão para os próximos anos?
LEOPOLDO MONTENEGRO: O setor de Bens de Informática consolida-se como o de maior participação no Polo Industrial de Manaus, seguido pelo Polo de Duas Rodas — que apresenta crescimento consistente, impulsionado pela demanda por mobilidade e pelo aquecimento do mercado nacional, enquanto o de Termoplástico mantém forte volume de produção e fornecimento de insumos — e o Eletroeletrônico, que também figura entre os principais motores em faturamento.
Para os próximos anos, enxergamos oportunidades importantes em áreas de maior intensidade tecnológica, como Tecnologias da Informação e Comunicação, automação industrial, mobilidade elétrica, armazenamento de energia, componentes eletrônicos e novas tecnologias associadas à Indústria 4.0
Também há espaço para ampliar atividades relacionadas à indústria da saúde, biofármacos, cosméticos e outros produtos de maior valor agregado associados à biodiversidade amazônica, respeitando as características e os instrumentos específicos de cada política.
Nosso objetivo é diversificar cada vez mais a matriz industrial, adensar as cadeias produtivas e aumentar o conteúdo tecnológico produzido na região.
EM PAUTA: A expansão do polo farmacêutico é apontada como uma das novas fronteiras de desenvolvimento da Zona Franca de Manaus. Quais investimentos e iniciativas estão em andamento para fortalecer esse segmento na região?
LEOPOLDO MONTENEGRO: A indústria farmacêutica e o complexo industrial da saúde representam uma oportunidade estratégica de diversificação para o Polo Industrial de Manaus.
A Suframa vem trabalhando na atração de novos investimentos, apresentando as vantagens competitivas da Zona Franca de Manaus a empresas do setor e buscando identificar os ajustes regulatórios e produtivos necessários para viabilizar novos projetos industriais.
Outra frente importante é a aproximação entre indústria, universidades, institutos de ciência e tecnologia e centros de pesquisa. A Amazônia possui ativos extraordinários de biodiversidade e conhecimento científico que podem contribuir para o desenvolvimento de medicamentos, cosméticos, dermocosméticos, fitoterápicos e outros produtos de elevado valor agregado.
Queremos transformar conhecimento, pesquisa e biodiversidade em inovação, produção industrial, propriedade intelectual, emprego qualificado e desenvolvimento regional, sempre dentro das regras ambientais e de acesso ao patrimônio genético.
EM PAUTA: O avanço da mobilidade elétrica tem transformado a indústria mundial. Como a Suframa trabalha para atrair investimentos e preparar o PIM para essa nova cadeia produtiva?
LEOPOLDO MONTENEGRO: A eletrificação é uma transformação estrutural da indústria mundial e representa uma grande oportunidade para o Polo Industrial de Manaus, especialmente porque já possuímos uma cadeia consolidada no segmento de duas rodas e competências relevantes nos setores eletroeletrônico, metalúrgico e de bens de informática.
A estratégia passa pela atração de novos projetos e pelo aperfeiçoamento dos instrumentos regulatórios e dos Processos Produtivos Básicos, de forma a acompanhar a evolução tecnológica de produtos como motocicletas elétricas, baterias, sistemas eletrônicos, motores, controladores, inversores e demais componentes.
Também temos um ativo extremamente importante: os investimentos em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação associados à Lei de TICs da Zona Franca de Manaus, que ajudam a fortalecer institutos de ciência e tecnologia, formar profissionais e desenvolver soluções tecnológicas na região.
O objetivo é fazer com que Manaus não seja apenas um local de montagem, mas participe cada vez mais das etapas de engenharia, desenvolvimento tecnológico, software, inovação e produção de componentes de maior valor agregado.
EM PAUTA: A transição para veículos elétricos pode representar mudanças na produção de componentes e na estrutura industrial instalada em Manaus. Quais oportunidades e desafios esse movimento traz para o Polo?
LEOPOLDO MONTENEGRO: A eletrificação traz oportunidades significativas. Ela abre espaço para novos investimentos em baterias, sistemas de gerenciamento de energia, motores elétricos, componentes eletrônicos, softwares embarcados, conectividade e outros produtos de alta intensidade tecnológica.
O PIM possui uma vantagem importante porque já reúne competências industriais nos segmentos de duas rodas, eletroeletrônico, metalúrgico, termoplástico e de bens de informática. O desafio é conectar essas competências à nova cadeia tecnológica.
Isso exige investimentos em qualificação profissional, pesquisa e desenvolvimento, modernização das linhas produtivas e fortalecimento dos fornecedores locais.
Há ainda desafios relacionados à economia circular, incluindo reaproveitamento, reciclagem e destinação adequada de baterias e componentes.
A transição energética deve ser vista, portanto, não como uma ameaça à indústria existente, mas como uma oportunidade para uma nova etapa de modernização e adensamento tecnológico do Polo.
EM PAUTA: Os eventos climáticos extremos, como secas severas e dificuldades de navegação nos rios amazônicos, têm impacto direto na logística regional. Que medidas estão sendo adotadas para reduzir riscos e garantir a continuidade das operações das empresas do PIM?
LEOPOLDO MONTENEGRO: As secas severas dos últimos anos demonstraram que a questão logística precisa ser tratada como uma agenda permanente e estratégica para a competitividade da Amazônia.
A Suframa atua de forma articulada com o Governo Federal, Governo do Estado, órgãos responsáveis pela infraestrutura e navegação, setor produtivo, operadores logísticos e demais instituições envolvidas no acompanhamento da situação dos rios e na construção de medidas preventivas.
Uma das principais lições das estiagens recentes foi a importância da antecipação e do planejamento. As empresas passaram a trabalhar de maneira ainda mais estruturada com estoques preventivos, antecipação da chegada de insumos e planejamento do escoamento da produção.
Defendemos também soluções estruturantes para a navegabilidade, com monitoramento hidrográfico, sinalização, dragagem dos pontos críticos quando tecnicamente necessária e melhoria da infraestrutura portuária.
O objetivo é sair de uma lógica exclusivamente emergencial e construir uma política permanente de segurança logística para a Amazônia, reduzindo riscos e aumentando a previsibilidade para quem produz e investe na região.
EM PAUTA: A infraestrutura logística ainda é apontada como um dos principais desafios para a competitividade da indústria amazônica. Quais avanços são necessários para melhorar o transporte de insumos e produtos na região?
LEOPOLDO MONTENEGRO: Precisamos avançar em uma estratégia logística integrada e multimodal para a Amazônia.
A primeira prioridade é fortalecer o modal hidroviário, fundamental para o abastecimento do Polo Industrial de Manaus, garantindo investimentos permanentes em sinalização, monitoramento, segurança da navegação, infraestrutura portuária e intervenções necessárias para preservar a navegabilidade.
Também precisamos modernizar e ampliar a eficiência dos terminais portuários e melhorar a integração entre os modais hidroviário, rodoviário e aéreo.
A BR-319 também integra essa discussão. A busca por soluções para sua trafegabilidade deve ocorrer com segurança jurídica, responsabilidade ambiental e cumprimento rigoroso do processo de licenciamento, conciliando infraestrutura e preservação da Amazônia.
Outro eixo fundamental é a digitalização. Reduzir burocracia, integrar sistemas e agilizar procedimentos aduaneiros e administrativos também significa reduzir o chamado Custo Amazônia.
EM PAUTA: O Polo Industrial de Manaus é responsável por milhares de empregos diretos e indiretos. Qual é o cenário atual de geração de empregos no PIM e quais ações estão sendo desenvolvidas para ampliar as oportunidades de trabalho?
LEOPOLDO MONTENEGRO: O Polo Industrial de Manaus mantém um dos melhores níveis de empregabilidade de sua história recente, com mais de 130 mil trabalhadores diretamente vinculados à atividade industrial, além dos milhares de empregos indiretos movimentados pela cadeia de fornecedores, comércio, serviços, transporte e logística.
Esse desempenho demonstra que o crescimento do faturamento vem acompanhado da manutenção de uma base importante de empregos formais e qualificados.
Para ampliar essas oportunidades, trabalhamos principalmente em duas frentes. A primeira é a atração e aprovação de novos investimentos, por meio dos projetos industriais analisados pela Suframa e submetidos ao Conselho de Administração da Suframa (CAS).
A segunda é a qualificação profissional. A indústria está mudando rapidamente, e precisamos preparar nossos trabalhadores para áreas como automação, robótica, inteligência artificial, programação, eletrônica avançada e novas tecnologias industriais.
A competitividade futura do PIM dependerá cada vez mais da combinação entre capital, tecnologia e pessoas qualificadas.
EM PAUTA: Como a Suframa avalia o futuro da Zona Franca de Manaus diante das mudanças no cenário econômico nacional, das novas tecnologias e das discussões sobre desenvolvimento sustentável na Amazônia?
LEOPOLDO MONTENEGRO: Enxergamos o futuro da Zona Franca de Manaus com muito otimismo, mas também com a consciência de que precisamos preparar o modelo para um novo ciclo de desenvolvimento.
A Reforma Tributária preservou constitucionalmente o diferencial competitivo da Zona Franca de Manaus, e agora nosso desafio é transformar essa segurança jurídica em novos investimentos, inovação e geração de empregos.
A Zona Franca precisa avançar cada vez mais em direção à Indústria 4.0, digitalização, inteligência artificial, automação, pesquisa e desenvolvimento, mobilidade elétrica e tecnologias de baixo carbono.
Ao mesmo tempo, temos uma característica singular: estamos no coração da maior floresta tropical do planeta. O desenvolvimento industrial de Manaus convive com um dos maiores níveis de preservação florestal do Brasil, e isso precisa ser transformado também em vantagem competitiva.
Por isso, enxergamos indústria e bioeconomia como vetores complementares de desenvolvimento. O futuro da ZFM está justamente na combinação entre uma indústria cada vez mais tecnológica e uma economia amazônica capaz de gerar valor mantendo a floresta em pé.
EM PAUTA: Qual é a principal estratégia da Suframa para garantir que o Polo Industrial de Manaus continue crescendo, atraindo investimentos e mantendo seu papel como motor econômico da Região Norte?
LEOPOLDO MONTENEGRO: Nossa estratégia pode ser resumida em três palavras: modernizar, diversificar e atrair.
Estamos trabalhando para modernizar a própria Suframa, digitalizando processos, aprimorando sistemas, utilizando novas tecnologias e tornando o ambiente de negócios mais eficiente e previsível.
Queremos diversificar ainda mais o Polo Industrial de Manaus, fortalecendo setores tradicionais e, simultaneamente, abrindo espaço para novas cadeias relacionadas à mobilidade elétrica, indústria da saúde, tecnologias digitais, componentes avançados, economia de baixo carbono e outras atividades de maior intensidade tecnológica.
E precisamos intensificar a atração de investimentos nacionais e internacionais, apresentando ao mundo as vantagens competitivas da Zona Franca de Manaus.
A Reforma Tributária inaugura um novo momento para o modelo. Temos segurança constitucional, uma base industrial consolidada, mão de obra especializada, capacidade de inovação e um ecossistema de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação construído ao longo de décadas.
Nosso objetivo é construir uma nova geração da Zona Franca de Manaus: mais tecnológica, moderna, sustentável, integrada à economia nacional e preparada para competir globalmente, mantendo aquilo que está na essência do modelo: gerar desenvolvimento, emprego e oportunidades na Amazônia.
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