Em Pauta nas redes sociais

Buscar no portal...

Manaus,

Colunista

Lazinha Martins

Quando discordar vira uma ameaça: como proteger a saúde mental em tempos de polarização

Em tempos de polarização política e excesso de informações, aprender a pensar antes de reagir é também uma forma de proteger a saúde emocional.
quando-discordar-vira-uma-amea
Crédito da imagem: Ilustração produzida com auxílio de inteligência artificial (IA)

O ano eleitoral costuma intensificar debates, opiniões e posicionamentos. Nas redes sociais, uma notícia é compartilhada em segundos, uma opinião pode se transformar rapidamente em uma discussão e uma divergência política, que poderia ser apenas uma diferença de pensamento, muitas vezes passa a ser tratada como uma ofensa pessoal.

É nesse cenário que surge uma questão importante: até que ponto estamos defendendo nossas ideias e a partir de quando estamos permitindo que elas controlem nossas emoções e nossos relacionamentos?

A política faz parte da vida em sociedade. Ter posicionamento, defender valores e participar das decisões coletivas é saudável e necessário. O problema começa quando a discordância deixa de ser compreendida como uma característica natural da convivência humana e passa a ser interpretada como uma ameaça.
Quando isso acontece, o diálogo dá lugar à necessidade de vencer, convencer, atacar ou desqualificar o outro.

Do ponto de vista psicológico, emoções como raiva, medo e indignação podem influenciar a maneira como interpretamos determinadas situações. Quando estamos emocionalmente ativados, tendemos a reagir mais rapidamente e a analisar menos cuidadosamente aquilo que recebemos.

Nas redes sociais, esse processo pode ser ainda mais intenso. O ambiente digital favorece uma circulação muito rápida de informações, opiniões e conteúdos emocionalmente carregados. No contexto das eleições de 2026, inclusive, o uso de inteligência artificial, conteúdos manipulados e desinformação tornou-se uma preocupação relevante para o processo eleitoral. O Tribunal Superior Eleitoral estabeleceu regras específicas para o uso de IA e para a propaganda eleitoral na internet.

Isso nos coloca diante de uma responsabilidade que não é apenas política, mas também psicológica: aprender a fazer uma pausa antes de reagir.

Na Terapia Cognitivo-Comportamental, trabalha-se com a compreensão da relação entre pensamentos, emoções e comportamentos. Em muitas situações, não reagimos diretamente ao acontecimento, mas à interpretação que fazemos dele.

Por isso, diante de uma informação que provoca indignação, antes de comentar ou compartilhar, algumas perguntas podem ser importantes:

Eu tenho certeza de que essa informação é verdadeira?

Estou reagindo ao conteúdo ou à emoção que ele despertou em mim?

Estou generalizando ao dizer que “todo mundo” ou “ninguém” pensa dessa maneira?

Estou analisando os fatos ou apenas procurando informações que confirmem aquilo que eu já acredito?

Se alguém que pensa diferente de mim lesse minha resposta, eu estaria dialogando ou apenas atacando?

Esse exercício não significa abandonar convicções. Significa desenvolver pensamento crítico e autorregulação emocional.

Um dos conceitos importantes dentro da abordagem cognitivo-comportamental é o de pensamento automático: aquela interpretação rápida que surge diante de uma situação e que, muitas vezes, é tomada como verdade antes mesmo de ser examinada.

Em uma discussão política, por exemplo, alguém pode pensar imediatamente: “Se essa pessoa pensa assim, então ela é ignorante”, “Quem vota nesse candidato não presta” ou “Quem discorda de mim é meu inimigo”.

Quando esse pensamento não é questionado, ele pode produzir raiva, desprezo, ansiedade e comportamentos impulsivos. A consequência pode aparecer nos comentários das redes sociais, nas conversas familiares, no ambiente de trabalho e até no afastamento de pessoas importantes.

Por isso, pensar antes de falar não é fraqueza. É autorregulação emocional.

Também é importante compreender que discordar não significa desrespeitar e respeitar não significa concordar.

É possível dizer “eu penso diferente” sem transformar o outro em inimigo.

É possível defender uma ideia sem humilhar quem pensa de outra maneira.

É possível abandonar uma discussão quando ela deixa de ser produtiva.

E é possível reconhecer que mudar de opinião diante de novas informações não representa falta de personalidade, mas capacidade de reflexão.

Outro cuidado necessário é estabelecer limites para o consumo de conteúdo político. A exposição contínua a discussões, notícias, vídeos e comentários pode aumentar a sensação de tensão e manter o indivíduo em constante estado de alerta. Nem toda informação precisa ser acompanhada imediatamente e nem toda provocação precisa receber uma resposta.

Uma estratégia simples é estabelecer momentos específicos para se informar e, principalmente, buscar fontes confiáveis antes de compartilhar conteúdos. Em um período marcado pela circulação de materiais produzidos ou manipulados por inteligência artificial, essa cautela tornou-se ainda mais necessária.

Também é importante observar os sinais de que a política está ocupando um espaço excessivo na vida emocional: irritação frequente, necessidade constante de acompanhar notícias, dificuldade de conversar com pessoas que pensam diferente, discussões repetitivas, prejuízo nos relacionamentos, ansiedade ou sensação de exaustão diante das redes sociais.

Quando uma opinião política passa a determinar quem merece ser amado, respeitado ou ouvido, talvez seja necessário olhar para além da política e observar o que está acontecendo emocionalmente.

A saúde mental não exige neutralidade. Exige consciência.

Não é necessário deixar de ter posicionamento para preservar a saúde emocional. É necessário não permitir que o posicionamento retire a capacidade de pensar, ouvir, questionar e escolher como reagir.

Em um ano eleitoral, talvez uma das atitudes mais importantes seja justamente aquela que parece mais simples: respirar, pensar e só depois responder.
Nem toda provocação merece uma resposta. Nem toda informação merece um compartilhamento. Nem toda divergência precisa terminar em rompimento.
A democracia pressupõe diferenças. A convivência humana também.

E aprender a conviver com aquilo que nos contraria pode ser, além de um exercício de cidadania, um importante exercício de saúde mental.

 

Lazinha Martins
Psicóloga Clínica e Hospitalar | Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e Neuropsicologia

Clique para comentar

Envie seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Clique no vídeo para ativar o som
Clique no vídeo para ativar o som