Os dados mais recentes do Indicador de Inadimplência do SPC Brasil, com referência a junho de 2026, mostram que a inadimplência empresarial se espalhou por todas as regiões do país. O número de dívidas em atraso de pessoas jurídicas cresceu 14,97% na comparação com junho de 2025, ritmo superior ao avanço de 12,40% no número de empresas negativadas — sinal de que companhias já inadimplentes estão acumulando mais compromissos não quitados, e não apenas de que novas empresas estão entrando em situação de calote.
O cenário é desigual pelo território nacional. Entre as pessoas jurídicas, o Centro-Oeste lidera a alta tanto no número de dívidas em atraso (+19,76% no ano) quanto no número de empresas negativadas (+16,37%), seguido de perto pela Região Sul. Entre as pessoas físicas, é a Região Sul que apresenta o maior crescimento da inadimplência, com alta de 17,06% no número de dívidas em atraso e de 10,67% no número de consumidores negativados.
O levantamento também aponta que o problema tende a se cronificar: tanto entre empresas quanto entre consumidores, o crescimento anual da inadimplência se concentrou nas dívidas mais antigas — de 4 a 5 anos de atraso —, com alta de 42,95% entre pessoas jurídicas e de 38,32% entre pessoas físicas. O tempo médio de atraso já soma 27,5 meses para as empresas e 29,1 meses para os consumidores, o equivalente a mais de dois anos de dívida em aberto.
Visão Brasil
Empresas (Pessoas Jurídicas)
Em junho de 2026, o número de empresas inadimplentes no Brasil cresceu 12,40% em relação a junho de 2025 — variação anual acima da observada no mês anterior. Na passagem de maio para junho, o número de devedores avançou 1,45%. Já o número de dívidas em atraso teve alta de 14,97% no ano e de 1,35% no mês.
A abertura por tempo de atraso mostra que o crescimento anual do indicador foi puxado pelas dívidas mais antigas: as inclusões de empresas devedoras com 4 a 5 anos de atraso avançaram 42,95%, enquanto as dívidas de até 90 dias cresceram apenas 3,96%. Atualmente, o tempo médio de atraso das empresas negativadas é de 27,5 meses (2,3 anos), e a faixa de 1 a 3 anos de atraso concentra a maior fatia do total (36,49% das dívidas).
Por setor do devedor, a Agricultura foi o segmento com maior crescimento no número de empresas inadimplentes (+13,57%), seguida por Serviços (+7,21%), Indústria (+6,88%) e Comércio (+4,67%). Em termos de participação no total de empresas negativadas, porém, Serviços concentra a maior fatia (38,56%), seguido por Comércio (30,32%).
Já sob a ótica do setor credor — a quem as empresas devem —, o setor de Serviços responde por 75,87% do total de dívidas em atraso, e foi também o que mais cresceu no ano (+15,74%). Em junho de 2026, cada empresa negativada devia, em média, R$7.056,91 somando todas as suas dívidas, e respondia, em média, a 1,79 credores diferentes. Quase quatro em cada dez empresas inadimplentes (38,26%) tinham dívidas de até R$1.000.

“O dado mais relevante não é apenas o crescimento de 12,40% no número de empresas negativadas, mas principalmente o avanço de 14,97% na quantidade de dívidas em atraso. Isso significa que o problema deixou de ser apenas a entrada de novas empresas na inadimplência: as empresas que já enfrentam dificuldades estão acumulando um número maior de compromissos financeiros não quitados”, revela João Paulo Travasso Maia, Coordenador de Soluções do SPC Brasil.
Consumidores (Pessoas Físicas)
Entre as famílias, o número de consumidores inadimplentes cresceu 7,55% em junho de 2026 na comparação anual — ritmo abaixo do observado no mês anterior. Na passagem de maio para junho, o número de devedores recuou 0,30%. O número de dívidas em atraso, por sua vez, avançou 13,32% no ano, com queda mensal de 0,59%.
Assim como entre as empresas, o crescimento da inadimplência das pessoas físicas está concentrado nas dívidas mais antigas: as inclusões de devedores com 4 a 5 anos de atraso subiram 38,32% no ano, enquanto o total de dívidas de 1 a 3 anos e de 3 a 4 anos recuou. O tempo médio de atraso dos consumidores negativados é de 29,1 meses (2,4 anos).
A faixa etária de 30 a 39 anos concentra a maior participação entre os devedores (23,54% do total), e a distribuição por sexo é praticamente equilibrada, com 51,34% de mulheres e 48,66% de homens entre os inadimplentes. A idade média do devedor pessoa física é de 45,3 anos.
Do lado dos credores, o setor de Água e Luz foi o que mais puxou o crescimento das dívidas em atraso no ano (+22,16%), seguido por Comunicação (+17,16%) e Bancos (+11,42%) — este último concentra a maior fatia do total de dívidas, com 65,76% de participação. Em junho de 2026, cada consumidor negativado devia, em média, R$5.152,52 no total, distribuídos entre 2,33 credores. O SPC Brasil estima que o país tinha, no mês, 74,80 milhões de pessoas físicas negativadas, o equivalente a 44,62% da população adulta brasileira.

Gráfico 2 — Pessoas inadimplentes, variação anual por região (jun/26 vs. jun/25). Fonte: SPC Brasil.
Nota metodológica: os indicadores do SPC Brasil são apurados por região geográfica (Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul); os relatórios de referência não trazem abertura por unidade da federação (estado). A seção a seguir detalha, portanto, o recorte disponível por região.
Recorte regional
Pessoas Jurídicas — inadimplência por região
Entre as empresas, o Centro-Oeste registrou a alta mais expressiva tanto no número de dívidas em atraso (+19,76%) quanto no número de empresas negativadas (+16,37%) na comparação anual, superando com folga a média nacional. A Região Sul aparece na sequência, também com crescimento acima da média do país. Sudeste e Nordeste, por outro lado, registraram os menores avanços entre as cinco regiões.
“Em diversas localidades fora do eixo Sudeste, as empresas costumam apresentar maior concentração em determinados setores econômicos, menor diversificação de receitas e acesso mais restrito ao crédito em condições competitivas. Quando ocorre qualquer desaceleração da atividade econômica ou aumento dos custos operacionais, essas empresas possuem menor capacidade de absorver os impactos”, completa Maia.
Empresas negativadas (devedores) — por região
| Região | Var. mensal | Var. anual |
|---|---|---|
| BRASIL | 1,45% | 12,40% |
| Norte | 0,63% | 13,63% |
| Nordeste | 1,78% | 10,56% |
| Centro-Oeste | 1,53% | 16,37% |
| Sudeste | 1,52% | 10,86% |
| Sul | 1,19% | 16,17% |
Fonte: SPC Brasil (ref. jun/2026).
Dívidas em atraso — por região
| Região | Var. mensal | Var. anual |
|---|---|---|
| BRASIL | 1,35% | 14,97% |
| Norte | 0,59% | 17,60% |
| Nordeste | 1,61% | 13,41% |
| Centro-Oeste | 1,55% | 19,76% |
| Sudeste | 1,43% | 13,09% |
| Sul | 1,03% | 18,09% |
Fonte: SPC Brasil (ref. jun/2026).

Pessoas Físicas — inadimplência por região
No universo dos consumidores, o cenário regional se inverte em relação ao das empresas: é a Região Sul que lidera a alta da inadimplência, tanto no número de dívidas em atraso (+17,06%) quanto no número de pessoas negativadas (+10,67%), seguida pelo Norte. A Região Nordeste apresentou o menor crescimento entre as cinco regiões, tanto em devedores (+3,96%) quanto em dívidas (+9,10%).
Pessoas negativadas (devedores) — por região
| Região | Var. mensal | Var. anual |
|---|---|---|
| BRASIL | -0,30% | 7,55% |
| Norte | 0,05% | 8,57% |
| Nordeste | -0,44% | 3,96% |
| Centro-Oeste | 0,22% | 6,89% |
| Sudeste | -0,41% | 6,43% |
| Sul | -0,56% | 10,67% |
Fonte: SPC Brasil (ref. jun/2026).
Dívidas em atraso — por região
| Região | Var. mensal | Var. anual |
|---|---|---|
| BRASIL | -0,59% | 13,32% |
| Norte | -0,29% | 15,45% |
| Nordeste | -0,81% | 9,10% |
| Centro-Oeste | -0,20% | 12,69% |
| Sudeste | -0,71% | 12,48% |
| Sul | -0,64% | 17,06% |
Fonte: SPC Brasil (ref. jun/2026).

Estimativa de pessoas físicas negativadas por região (jun/2026)
| Região | Nº de negativados | % da população adulta |
|---|---|---|
| Norte | 6,86 milhões | 48,45% |
| Nordeste | 19,65 milhões | 44,48% |
| Centro-Oeste | 6,40 milhões | 48,34% |
| Sudeste | 32,04 milhões | 44,65% |
| Sul | 9,86 milhões | 40,53% |
Fonte: SPC Brasil. Estimativa com margem de erro geral de 4,0 p.p. para intervalo de confiança de 95%.
Contexto e análise
Para o SPC Brasil, o dado mais relevante do mês não é apenas a entrada de novas empresas em situação de inadimplência, mas o fato de que companhias já endividadas estão acumulando um número maior de compromissos não quitados — um padrão típico de períodos em que o fluxo de caixa permanece pressionado por tempo prolongado, em meio a crédito seletivo e custos financeiros elevados para negócios de menor porte.
O avanço mais acentuado da inadimplência empresarial fora do eixo Sudeste, especialmente no Centro-Oeste e no Sul, é associado a fatores estruturais: maior concentração setorial, menor diversificação de receitas e acesso mais restrito a crédito em condições competitivas nessas regiões. Isso reduz a capacidade de empresas locais de absorver desacelerações da atividade econômica ou aumentos de custos operacionais.
Entre os setores, Serviços e o varejo de bens não duráveis e semiduráveis concentram a maior pressão sobre o fluxo de caixa: o primeiro por refletir diretamente a perda de poder de compra discricionário das famílias, e o segundo pela rigidez de custos operacionais (aluguel, energia, logística) diante de receitas voláteis e sensíveis a preço.
A elevação da inadimplência também tende a comprometer a capacidade de investimento das empresas: o fluxo de caixa livre, que poderia ser direcionado a inovação, eficiência produtiva ou expansão, passa a ser drenado para o serviço da dívida e para a quitação de passivos emergenciais — o que compromete a competitividade estrutural dos negócios no médio prazo.
“A sazonalidade não cria necessariamente o problema financeiro, mas costuma intensificar fragilidades que já estavam presentes na estrutura da empresa”, comenta João Paulo Travasso Maia.
Mais do que reagir às dificuldades, o planejamento financeiro deve permitir que a empresa tome decisões preventivas. Em um ambiente econômico mais desafiador, antecipar riscos costuma ser significativamente mais eficiente e menos custoso do que administrar problemas depois que eles já impactaram o caixa.
Recomendações para empresas
- Transformar a gestão financeira em processo contínuo, com projeções regulares de fluxo de caixa e acompanhamento de indicadores.
- Diversificar fontes de receita e controlar rigorosamente despesas fixas, evitando endividamento de curto prazo elevado.
- Negociar prazos equilibrados entre recebimentos e pagamentos junto a fornecedores e clientes.
- Incorporar análise de risco ao processo comercial, avaliando previamente o histórico de clientes, fornecedores e parceiros por meio de consultas de CPF e CNPJ.
Sobre o SPC Brasil
O SPC Brasil é um birô de crédito 100% brasileiro e referência em gestão e inteligência de dados para análise e recuperação de crédito. Com uma estratégia datatech e presente em todo o território nacional, opera um dos maiores volumes de informação do país, com 69 milhões de dados sobre empresas e 263 milhões sobre pessoas físicas, transformando dados em inteligência prática para quem analisa, concede, monitora e recupera crédito. Mais de 1 milhão de clientes confiam hoje nas soluções do SPC Brasil.
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