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Estudo encontra agrotóxicos proibidos em plantas medicinais usadas por indígenas em Mato Grosso

Resíduos de substâncias banidas no Brasil e na União Europeia foram identificados em 88% das amostras analisadas; investigação também apura relatos de doenças e abortos espontâneos entre indígenas Nambikwara

A presença de agrotóxicos proibidos internacionalmente em plantas medicinais utilizadas por indígenas da Terra Indígena Tirecatinga, em Sapezal (MT), passou a ser alvo de uma investigação após um estudo identificar contaminação em 88% das amostras coletadas na comunidade.

A pesquisa, desenvolvida pelo Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), detectou resíduos de substâncias como carbofurano — proibido no Brasil e na União Europeia —, além de atrazina, clorpirifós, tiametoxam e acetamiprido em plantas tradicionalmente utilizadas pelos indígenas Nambikwara, como breozinho, pata-de-vaca e raiz-doce.

Os indícios levantados pelo estudo motivaram o aprofundamento das apurações sobre possíveis impactos da atividade agrícola desenvolvida no entorno do território indígena.

Segundo a portaria que instaurou o inquérito civil, há “graves relatos das lideranças indígenas e da comunidade Nambikwara sobre o surgimento de problemas de saúde raros no território, incluindo doenças respiratórias, dores de cabeça severas e casos de aborto espontâneo, possivelmente vinculados à pulverização aérea e à contaminação de corpos d’água”.

A investigação também leva em consideração que Sapezal figura entre os municípios que mais utilizam agrotóxicos em Mato Grosso, cenário que, segundo o documento, “evidencia uma exposição desproporcional da população indígena a substâncias nocivas provenientes das lavouras de algodão e soja do entorno”.

Além de apurar a origem da contaminação, o procedimento pretende monitorar a presença de resíduos de defensivos agrícolas nos produtos vegetais consumidos pela comunidade, mapear possíveis pulverizações irregulares nas propriedades vizinhas e avaliar os impactos à saúde e à segurança alimentar dos indígenas.

Como parte das diligências, foram solicitados relatórios técnicos a órgãos ambientais e de fiscalização, entre eles o Instituto de Defesa Agropecuária de Mato Grosso (Indea-MT), a Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema-MT), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), além de áreas técnicas dos ministérios da Saúde e do Meio Ambiente.

Os autos também serão compartilhados com a área especializada em populações indígenas para permitir atuação conjunta no acompanhamento do caso.

A investigação busca esclarecer se a pulverização de agrotóxicos nas áreas agrícolas vizinhas ultrapassou os limites das propriedades rurais, contaminando recursos naturais essenciais para a sobrevivência da comunidade Nambikwara, que utiliza plantas medicinais, caça, pesca e cursos d’água como parte de seu modo tradicional de vida.

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