O Ministério Público Federal (MPF) instaurou um inquérito civil para investigar possíveis riscos à integridade de sítios arqueológicos localizados no Amazonas relacionados à competição internacional “OpenAI to Z Challenge”, promovida pela empresa norte-americana OpenAI. A medida foi formalizada por meio da Portaria nº 1/13º Ofício/PR/AM, de 15 de maio de 2026.
O objetivo da investigação é apurar eventuais impactos da iniciativa, que teria como proposta identificar novos sítios arqueológicos na Amazônia por meio do uso de ferramentas de inteligência artificial e da colaboração de participantes voluntários.
Segundo o MPF, a competição gerou controvérsias e manifestações críticas de instituições ligadas à preservação do patrimônio histórico e arqueológico, entre elas a Sociedade de Arqueologia Brasileira (SAB), o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e a Advocacia-Geral da União (AGU).
Entre as preocupações apontadas estão a suposta ausência de consulta a comunidades indígenas e tradicionais sobre o uso de dados referentes aos seus territórios, o aproveitamento de trabalho voluntário para o treinamento de sistemas de inteligência artificial e o risco de exposição de áreas arqueológicas ainda não protegidas oficialmente.
De acordo com a portaria, uma das principais preocupações envolve a eventual divulgação de coordenadas geográficas de sítios arqueológicos ainda inexplorados, o que poderia facilitar ações de saqueamento, exploração ilegal e danos ao patrimônio cultural brasileiro.
O procedimento teve origem em um processo preparatório instaurado em 2025. Com o encerramento do prazo inicial de tramitação e a necessidade de aprofundamento das investigações, o MPF decidiu converter o caso em inquérito civil, instrumento que permite a realização de novas diligências e a coleta de informações adicionais.
O órgão destaca que o objetivo é verificar, analisar e dimensionar os possíveis impactos da iniciativa sobre o patrimônio arqueológico localizado no Amazonas. O caso está sendo acompanhado pelo Iphan e pela AGU.
A investigação ficará vinculada à 4ª Câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal, responsável por temas relacionados ao meio ambiente e ao patrimônio cultural.
A portaria foi assinada pelo procurador da República Leonardo Sampaio de Almeida, em substituição, e determina a continuidade das diligências já em andamento para subsidiar a apuração dos fatos.
Explicação
O Ministério dos Povos Indígenas pediu à OpenAI explicações sobre um concurso global organizado pela dona do ChatGPT para identificar sítios arqueológicos na Amazônia utilizando dados de código aberto. O governo brasileiro estaria “preocupado” com os efeitos da iniciativa. As informações são do jornal Folha de São Paulo.
Intitulado “OpenAI to Z Challenge”, o desafio foi lançado em maio deste ano e as inscrições terminaram em 29 de junho, mas a lista das cinco equipes finalistas ainda não foi divulgada. O nome faz referência à lenda da cidade perdida de Z, que acredita-se estar em algum lugar no Mato Grosso.
O mito foi tema de pesquisas do explorador britânico Percy Harrison Fawcett, que desapareceu com o filho e um amigo no Alto Xingu em uma expedição há cem anos. E a OpenAI aproveitou a data de aniversário da trágica aventura para lançar o concurso, com a distribuição de US$ 400 mil (R$ 2,4 milhões) em prêmios.
“Agora, pela primeira vez na história, qualquer pessoa pode realizar pesquisas arqueológicas. A união de coleções de código aberto de imagens de satélite, mapas arqueológicos e histórias indígenas cria uma trilha de retalhos, que leva à possibilidade de novas descobertas que preenchem as peças que faltam no quebra-cabeça”, diz a página do desafio.
Terra de ninguém?
A OpenAI sugere aos participantes que concentrem as buscas no bioma amazônico no norte da América do Sul, especialmente no Brasil, além dos arredores da Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname, Venezuela e Guiana Francesa.
O problema é que a empresa parece ter se esquecido de comunicar o desafio às autoridades que monitoram esse tipo de atividade. O governo brasileiro reforça que há uma série de normas regulamentando pesquisas arqueológicas — e quer saber quais foram os critérios metodológicos e jurídicos considerados no concurso.
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