A histerectomia total é uma cirurgia ginecológica que consiste na retirada do útero. Em alguns casos, também podem ser removidos o colo do útero e os ovários, dependendo da indicação médica.
O procedimento é indicado principalmente em situações como miomas uterinos, endometriose severa, sangramentos intensos, dor pélvica crônica e alguns tipos de câncer ginecológico.
Embora seja uma cirurgia frequentemente associada à melhora dos sintomas físicos e à qualidade de vida, seus impactos vão além do corpo e atravessam dimensões emocionais, simbólicas e subjetivas da experiência feminina.
Entre o corpo e o silêncio
Não se trata de uma doença, mas de um procedimento cirúrgico que pode, ainda assim, mobilizar intensas experiências emocionais. As condições que levam à histerectomia possuem classificações próprias na medicina, como endometriose (CID N80), miomas uterinos (CID D25) e câncer do útero (CID C53 e C54).
No campo da saúde mental, o DSM-5 , manual utilizado para diagnóstico de transtornos psicológicos , reconhece que eventos médicos significativos podem desencadear sofrimento emocional, como o Transtorno de Ajustamento, além de quadros de ansiedade e depressão.
Quando o corpo muda antes da emoção alcançar
Quando há retirada dos ovários, o organismo entra em menopausa cirúrgica, marcada pela queda abrupta de hormônios como estrogênio e progesterona. Essa alteração não é apenas física: ela atravessa o humor, o sono, o desejo e a forma como a mulher se percebe no mundo.
Entre os efeitos mais comuns estão ondas de calor, fadiga, alterações no sono, ressecamento vaginal, queda da libido e mudanças metabólicas. Mas, para além do corpo, algo mais silencioso também acontece.
As marcas que não aparecem em exames
Muitas mulheres relatam que o impacto emocional pode ser tão intenso quanto o físico. Oscilações de humor, irritabilidade, ansiedade, tristeza persistente e uma sensação difícil de nomear — como um vazio ou uma ruptura interna — podem surgir nesse processo.
Para algumas, o útero carrega mais do que uma função biológica. Ele está simbolicamente ligado à feminilidade, à fertilidade e à identidade. Por isso, sua retirada pode ser vivida como um tipo de luto invisível, que não encontra facilmente palavras ou validação.
Corpo, desejo e relações em transformação
As mudanças hormonais, somadas às transformações na percepção corporal e no desejo sexual, podem impactar também os vínculos afetivos. Em alguns casos, surgem inseguranças, distanciamentos emocionais e dificuldades de comunicação dentro das relações.
Não raro, o silêncio entre o casal pesa mais do que a própria mudança corporal — especialmente quando não há espaço para falar sobre o que está sendo sentido.
Quando o sofrimento pede escuta
Sinais como tristeza persistente, ansiedade constante, perda de interesse nas atividades diárias e dificuldade de adaptação podem indicar um sofrimento emocional mais intenso.
Segundo o DSM-5, esses quadros podem estar relacionados ao Transtorno de Ajustamento, quando a resposta emocional a um evento significativo se torna desproporcional e passa a interferir na vida pessoal, social ou familiar.
O caminho do cuidado possível
O pós-operatório da histerectomia exige cuidado integral. Não apenas com o corpo, mas com aquilo que não aparece nos exames.
Entre os caminhos possíveis de cuidado estão o acompanhamento ginecológico contínuo, a psicoterapia, o apoio familiar e conjugal, além de práticas leves de movimento, sono regulado e alimentação equilibrada, sempre respeitando o tempo de cada corpo.
Em alguns casos, a reposição hormonal pode ser indicada, dependendo da avaliação médica.
A histerectomia total não representa o fim da feminilidade de uma mulher. Pode, na verdade, inaugurar um processo profundo de reconstrução física, emocional e simbólica , um processo que nem sempre é visível, mas que é intensamente vivido.
Esta reflexão foi construída a partir de experiências de escuta e da observação dos impactos da histerectomia total na saúde mental feminina. Não se trata de um olhar clínico, mas de uma tentativa de aproximação sensível com aquilo que muitas mulheres sentem, mas nem sempre conseguem dizer.
Nomear essas experiências é também uma forma de cuidado. E, em muitos casos, é justamente no momento em que o silêncio começa a se romper que o acolhimento se torna possível.







Envie seu comentário