Em Pauta nas redes sociais

Buscar no portal...

Manaus,

Colunista

Lazinha Martins

TDAH na Vida Adulta: quando o diagnóstico chega tarde

O diagnóstico tardio do TDAH em adultos ainda é cercado por estigmas, desinformação e impactos emocionais significativos.
tdah-na-vida-adulta-quando-o-d
Arte digital ilustrativa

O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é uma condição do neurodesenvolvimento reconhecida pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR) e classificada pela Classificação Internacional de Doenças (CID-11). O transtorno é caracterizado por padrões persistentes de desatenção, hiperatividade e impulsividade que interferem diretamente no funcionamento social, acadêmico, profissional e emocional do indivíduo.

Segundo o DSM-5-TR, o TDAH pode se apresentar em três formas: predominância desatenta, predominância hiperativa/impulsiva ou apresentação combinada. Já na CID-11, o transtorno está classificado como “6A05 – Attention Deficit Hyperactivity Disorder”. Embora seja frequentemente associado à infância, atualmente compreende-se que muitos sintomas permanecem ao longo da vida adulta, especialmente quando não identificados precocemente.

Na vida adulta, o TDAH costuma manifestar-se de maneira diferente da infância. A hiperatividade física pode diminuir, enquanto permanecem sintomas como desorganização, procrastinação, dificuldade em manter foco, esquecimentos frequentes, instabilidade emocional, impulsividade, dificuldade em concluir tarefas e sensação constante de sobrecarga mental.

Muitos adultos passam anos sem compreender a origem de suas dificuldades, convivendo com críticas, julgamentos e sentimentos de incapacidade. Frequentemente são rotulados como “desatentos”, “preguiçosos” ou “desinteressados”, quando na realidade enfrentam uma condição neurobiológica que afeta diretamente funções executivas importantes, como planejamento, controle inibitório, memória operacional e autorregulação emocional.

O neuropsicólogo e pesquisador , uma das maiores referências mundiais sobre o transtorno, destaca em suas obras que o TDAH vai além da dificuldade de atenção. Segundo seus estudos, trata-se de um transtorno relacionado principalmente ao prejuízo das funções executivas e da capacidade de autorregulação.

Em seu livro Aprendendo a Conviver com o TDAH, Barkley enfatiza a importância de aprender a identificar os primeiros sinais, compreender os desafios enfrentados tanto pela pessoa diagnosticada quanto pela família e desconstruir mitos que ainda cercam o transtorno. O autor ressalta que o TDAH não está relacionado à falta de inteligência ou ausência de esforço, mas sim a alterações no funcionamento cerebral que impactam diretamente o comportamento e a organização da vida cotidiana.

O diagnóstico do TDAH é clínico e deve ser realizado por profissionais capacitados, considerando histórico de vida, persistência dos sintomas desde a infância, prejuízos funcionais e avaliação comportamental detalhada. Em muitos casos, a avaliação neuropsicológica auxilia significativamente na investigação das funções cognitivas e executivas, contribuindo para um entendimento mais amplo do quadro.

Receber o diagnóstico na vida adulta pode despertar sentimentos diversos. Para muitos, existe um sentimento de alívio ao finalmente compreenderem suas dificuldades. Para outros, surgem questionamentos sobre quantas experiências foram atravessadas sem acolhimento ou suporte adequado.

Ainda hoje, o TDAH enfrenta inúmeros tabus sociais. Existe uma tendência equivocada de minimizar o sofrimento psíquico associado ao transtorno, como se tudo fosse apenas falta de disciplina ou esforço pessoal. Esse pensamento contribui para o preconceito, para o atraso diagnóstico e para o sofrimento emocional de muitos adultos que passam anos tentando corresponder a expectativas sem compreender suas próprias limitações e potencialidades.

Entretanto, o diagnóstico tardio não representa o fim das possibilidades. Pelo contrário: pode ser o início de um processo de autoconhecimento, reorganização emocional e construção de estratégias mais saudáveis de funcionamento.

A intervenção psicológica possui papel fundamental nesse processo. A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) apresenta importantes contribuições no desenvolvimento de habilidades relacionadas à organização da rotina, manejo emocional, controle da impulsividade, planejamento e fortalecimento da autoestima. Além disso, estratégias psicoeducativas auxiliam o indivíduo a compreender melhor o transtorno e desenvolver formas mais funcionais de lidar com os desafios cotidianos.

Em alguns casos, o tratamento medicamentoso pode ser indicado pelo médico especialista, sempre de maneira individualizada e associado ao acompanhamento psicológico. Recursos como agendas, lembretes, divisão de tarefas, planejamento visual e adaptações ambientais também podem favorecer significativamente a qualidade de vida.

Falar sobre TDAH é promover conscientização, acolhimento e combate ao preconceito. O diagnóstico não define a capacidade, a inteligência ou o valor de uma pessoa. Quando existe suporte adequado, informação baseada em evidências e acompanhamento profissional, o indivíduo pode desenvolver autonomia, qualidade de vida e melhor compreensão sobre si mesmo.

 

Lazinha Florenco Martins
Psicóloga | Especialista em Neuropsicologia e Terapia Cognitivo-Comportamental

 

Referência sugerida:
BARKLEY, Russell A. Aprendendo a Conviver com o TDAH. Porto Alegre: Artmed.

Clique para comentar

Envie seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Clique no vídeo para ativar o som
Clique no vídeo para ativar o som

Veja também