Serviço público bom abre portas: gera mais tempo, amplia o acesso a direitos e cria oportunidades concretas para a população. Mas, nas capitais brasileiras, essa entrega ainda está distante do ideal. Mesmo concentrando orçamento, estrutura administrativa e equipamentos públicos, nenhuma das 26 capitais analisadas supera a média dos municípios do país em Saúde e Proteção Social, duas áreas essenciais para a vida cotidiana.
O dado faz parte do Índice de Qualidade dos Serviços Públicos nas Capitais 2026 (IQSP), levantamento da Agenda Pública que avaliou a qualidade da entrega dos serviços públicos a partir de 47 variáveis oficiais, organizadas em oito dimensões, sendo elas: Educação, Saúde, Proteção Social, Meio Ambiente, Infraestrutura, Desenvolvimento Econômico, Gestão e Mobilidade.
Cada indicador foi convertido para uma escala de 0 a 1, e a nota final de cada capital corresponde à média simples das oito dimensões, com pesos iguais. Brasília não integra o levantamento.
Na classificação geral, apenas Curitiba (PR) atingiu a faixa de alta qualidade, com nota 0,704. A maior parte das capitais ficou entre 0,500 e 0,600, faixa considerada média. Na sequência do ranking aparecem Florianópolis (SC), com 0,688, Vitória (ES), com 0,674, São Paulo (SP), com 0,624, e Cuiabá (MT), com 0,571.
Para a Agenda Pública, o resultado mostra que o debate sobre serviços públicos precisa ir além da quantidade de recursos disponíveis. O desafio é transformar gestão, estrutura e orçamento em entrega real para a população. Na prática, serviço público de qualidade reduz tempo perdido, facilita o acesso a direitos e cria melhores condições para que as pessoas estudem, trabalhem, se desloquem, cuidem da saúde e tenham mais oportunidades.
“Quando o serviço público funciona, ele muda a vida das pessoas. Uma consulta que acontece no tempo certo, uma escola que garante aprendizagem, um transporte mais acessível, um CRAS próximo da população ou uma infraestrutura básica bem mantida faz diferença no cotidiano e ampliam oportunidades. O índice mostra que boa gestão pública não é um tema abstrato: é uma condição para garantir acesso, reduzir desigualdades e melhorar a vida nas cidades”, afirma Sergio Andrade, diretor-executivo da Agenda Pública.
Dinheiro e estrutura não garantem, sozinhos, melhor entrega
A pesquisa também revela contrastes importantes entre riqueza econômica e qualidade dos serviços públicos. São Paulo, por exemplo, lidera o país em PIB per capita, salário médio e empreendedorismo, mas aparece em 4º lugar no ranking geral, com nota 0,624, e tem a menor proporção de unidades de CRAS por 100 mil habitantes entre as 26 capitais. O dado reforça que dinamismo econômico não se converte automaticamente em acesso social.
Outro exemplo vem de Florianópolis, que aparece em 2º lugar nacional, com nota 0,688, à frente de capitais com economias maiores, como Curitiba e Porto Alegre. A capital catarinense lidera as dimensões de Saúde, Desenvolvimento Econômico e Mobilidade, com a menor mortalidade infantil, a menor proporção de pobreza e o maior rendimento mediano entre as 26 capitais.
No Sul, as três capitais aparecem em destaque na dimensão de Mobilidade. Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre ocupam as três primeiras posições nacionais nessa área, que considera indicadores como tempo de deslocamento, peso da tarifa de ônibus na renda, mortes no trânsito e internações por acidente.
No Sudeste, Vitória lidera a região e aparece em 3º lugar no ranking nacional, com nota 0,674. A capital capixaba tem a maior proporção de pessoas com ensino superior do país, a segunda maior proporção de crianças em creche e o maior investimento em educação por habitante. Também lidera indicadores de acesso a água, esgoto, pavimentação e internet.
No Centro-Oeste, a pesquisa mostra um contraste entre bons resultados sociais e alerta fiscal. A região tem a segunda melhor média do país em Proteção Social e Educação, mas a pior média em Gestão. Cuiabá, que lidera a região e aparece em 5º lugar nacional, tem nota zero em liquidez, o pior indicador fiscal entre as capitais nessa métrica.
No Nordeste, Aracaju lidera a região e aparece em 9º lugar no ranking nacional, com indicadores de Gestão acima da média das capitais, mas ainda enfrenta desafios em Saúde e Educação. A região tem a segunda menor média geral do país, à frente apenas do Norte, com fragilidades em Saúde, Educação, Proteção Social e Desenvolvimento Econômico.
No Norte, a infraestrutura básica aparece como ponto crítico. A região tem a menor média do país, 0,472, com dificuldades em acesso a água, esgoto, gestão de resíduos, iluminação pública, pavimentação e custo do transporte coletivo em relação à renda. Belém (PA) registra o menor resultado entre as 26 capitais, com nota 0,392, em um quadro que combina fragilidade de gestão, baixa proporção de servidores efetivos e desempenho limitado em governo digital.
Amazônia Legal tem média abaixo até da média dos municípios brasileiros
O recorte da Amazônia Legal também chama atenção. As nove capitais da região, que incluem os sete estados do Norte, Mato Grosso e Maranhão, têm média de 0,482 no IQSP, abaixo da média das capitais brasileiras, de 0,526, e também abaixo da média dos municípios brasileiros, de 0,491. O resultado mostra que a região não pode ser tratada como um bloco homogêneo: enquanto Cuiabá, Palmas e Manaus aparecem entre as 14 capitais com melhor resultado do país, Belém ocupa a última posição nacional.
Sobre o IQSP
O IQSP mede a qualidade dos serviços públicos nas 26 capitais brasileiras a partir de 47 variáveis de bases públicas e oficiais. O índice não mede satisfação do usuário, ele combina resultado de política pública, estrutura disponível e capacidade de entrega da gestão.
Os resultados foram classificados em cinco faixas, de muito baixa a muito alta qualidade. Esta é a segunda edição da pesquisa. Como a primeira edição usava outra escala metodológica, a nota de 2026 não pode ser comparada diretamente com a nota da edição anterior. A pesquisa tem como objetivo produzir evidências, comparações e recomendações para apoiar governos na melhoria dos serviços públicos, ampliando transparência, participação cidadã e decisões públicas mais simples, inteligentes e centradas nas pessoas.
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