A Câmara Municipal de Manaus (CMM) volta a ser palco de um debate que ultrapassa o mérito da homenagem e alcança um princípio essencial da administração pública: a impessoalidade. O vereador Saimon Bessa (União Brasil) apresentou projeto para conceder o Título de Cidadão de Manaus ao deputado estadual Carlinhos Bessa (UB), seu primo e ex-chefe.
A relação entre ambos vai além dos laços familiares. Entre 2019 e 2023, Saimon Bessa ocupou o cargo de chefe de gabinete de Carlinhos Bessa na Assembleia Legislativa do Amazonas, período em que consolidou sua trajetória política ao lado do parlamentar. Hoje, já investido no mandato de vereador da capital, é justamente ele quem propõe uma das mais importantes honrarias concedidas pelo Legislativo municipal ao antigo superior hierárquico e parente.
Do ponto de vista legal, não há impedimento explícito para que um vereador apresente uma homenagem a um familiar. O projeto fundamenta-se no Regimento Interno da Câmara Municipal de Manaus e sustenta que Carlinhos Bessa reúne méritos suficientes para receber o título, destacando sua atuação parlamentar, sua formação jurídica, trabalhos na área da saúde, defesa de pautas sociais e iniciativas voltadas à população do interior que busca atendimento médico em Manaus.
A justificativa também ressalta que o deputado, natural de Tefé, desenvolveu atividades que repercutiram diretamente na capital amazonense, motivo pelo qual faria jus ao reconhecimento oficial como Cidadão de Manaus.
Entretanto, a discussão política dificilmente ficará restrita ao currículo do homenageado. O fato de a iniciativa partir de um primo que também foi seu chefe de gabinete inevitavelmente levanta questionamentos sobre os critérios utilizados para a concessão de honrarias públicas. Ainda que os argumentos apresentados no projeto sejam consistentes, a coincidência entre parentesco e relação política cria um ambiente propício para críticas sobre possível favorecimento e conflito de interesses de natureza ética.
Títulos honoríficos existem para reconhecer trajetórias consideradas relevantes pela coletividade. Justamente por isso, precisam estar protegidos de qualquer percepção de personalismo. Quando uma homenagem parte de alguém diretamente ligado ao homenageado por vínculos familiares e políticos, o debate deixa de ser apenas sobre os serviços prestados e passa a envolver a credibilidade da própria homenagem.
Não se trata de negar as contribuições atribuídas ao deputado estadual. Trata-se de reconhecer que, na política, a aparência de imparcialidade é tão importante quanto a legalidade dos atos. Em tempos de crescente desconfiança da população em relação às instituições, decisões dessa natureza exigem ainda mais cautela e sensibilidade.
O episódio evidencia uma prática recorrente na política brasileira: relações pessoais frequentemente caminham lado a lado com decisões institucionais. Embora isso não configure, por si só, irregularidade, reforça a necessidade de que agentes públicos adotem critérios capazes de afastar qualquer dúvida sobre favorecimentos decorrentes de vínculos familiares ou políticos.
Mais do que uma homenagem individual, o caso coloca em discussão os limites entre reconhecimento institucional e relações de parentesco dentro da atividade parlamentar. Afinal, quando um primo homenageia outro primo — que também foi seu líder político —, a homenagem deixa de ser apenas simbólica e passa a representar um teste para os princípios de transparência, impessoalidade e ética que devem orientar o Poder Legislativo.
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