O Ministério Público Eleitoral (MPE) levou ao Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM) uma investigação sobre 461 desligamentos e mais de 140 admissões na AADESAM, concentrados entre 1º e 3 de julho, às vésperas do período de vedação eleitoral. A Procuradoria aponta indícios de possível uso político da agência e pede acesso a documentos para apurar eventual abuso de poder político nas eleições de 2026. (Veja as conversas extraídas dos autos do processo que tramita na Justiça e obtidas com exclusividade pelo portal Em Pauta)
A movimentação de funcionários da Agência Amazonense de Desenvolvimento Cultural, Social e Ambiental (AADESAM) entrou no radar da Justiça Eleitoral em meio à disputa pelo Governo do Amazonas.
O Ministério Público Eleitoral ingressou, nesta segunda-feira (17), com uma tutela cautelar antecedente no TRE-AM contra a AADESAM, o diretor-presidente William Alexandre Silva de Abreu, o Estado do Amazonas, o governador Roberto Cidade (União Brasil) e o vice-governador Serafim Corrêa (PSB).
O processo nº 0600830-86.2026.6.04.0000 trata de possível abuso de poder político ou de autoridade. Roberto Cidade e os demais citados aparecem como requeridos, mas não há, neste momento, decisão do TRE-AM reconhecendo a prática de abuso eleitoral.
461 desligamentos em três dias
Segundo a Procuradoria Regional Eleitoral, a AADESAM informou ter processado mais de 140 admissões entre os dias 1º e 3 de julho.
Paralelamente, dados extraídos do eSocial apontaram 461 desligamentos com datas atribuídas aos mesmos três dias. O MPE afirma que esses desligamentos não apareciam no sistema em 6 de julho e que a transmissão ao eSocial ocorreu posteriormente.
A Procuradoria também identificou oito desligamentos com datas posteriores a 3 de julho — nos dias 4, 7, 10, 14 e 15 — que, segundo o órgão, não dependem da discussão sobre eventual retroatividade das datas para serem analisados à luz da legislação eleitoral.
O MPE cita ainda investigação iniciada pelo Ministério Público do Trabalho sobre dispensa em massa durante período proibitivo eleitoral e possível assinatura de documentos com datas retroativas. 

Depoimentos relatam pressão política
O caso ganhou dimensão eleitoral a partir de depoimentos de trabalhadores colhidos pelo MPT e incorporados ao procedimento.
De acordo com a petição do MPE, relatos apontam pressão para assinatura de documentos com datas retroativas e abordagens relacionadas a apoio político.
Em um dos depoimentos, uma trabalhadora afirmou ter sido abordada para apoiar o pré-candidato Roberto Cidade como condição para manutenção do emprego. Outros depoimentos, segundo a Procuradoria, apresentariam relatos semelhantes.
Outro depoimento citado no processo relata que empregados que permaneceram na AADESAM estariam sendo abordados para apoiar Roberto Cidade. A testemunha também afirmou que trabalhadores receberam orientações para assinar documentos com a data de 3 de julho.
Há, contudo, depoimento que apresenta uma versão diferente. Uma ex-assessora de comunicação afirmou não ter presenciado chefias solicitando apoio político antes das dispensas, embora tenha relatado ter ouvido que empregados que permaneceram na agência passaram a ser abordados para apoiar o governador.
MPE quer preservar provas
Diante das suspeitas, a Procuradoria Eleitoral pediu ao TRE-AM medidas para preservar documentos e impedir alterações nos registros relacionados às admissões e desligamentos.
Entre os documentos solicitados estão:
- relação completa dos 461 desligamentos;
- lista de admissões e contratações;
- datas de admissão, demissão e transmissão ao eSocial;
- documentos do processo seletivo do Edital nº 004/2026;
- critérios de classificação e qualificação dos contratados;
- contrato de gestão da AADESAM;
- termos de rescisão e avisos prévios;
- exames demissionais;
- registros de ponto;
- mensagens enviadas aos trabalhadores;
- comunicações entre AADESAM, Governo, Casa Civil, SEAS e SEPROR.
A Procuradoria também pede que os dados e registros relacionados às admissões e desligamentos desde 1º de junho não sejam excluídos, alterados ou retificados sem autorização judicial.

Justiça do Trabalho já havia determinado reintegrações
O MPE também cita uma decisão anterior da Justiça do Trabalho relacionada às dispensas. Segundo a Procuradoria Eleitoral, a Justiça Trabalhista já havia reconhecido, em decisão liminar, irregularidades nas dispensas e determinado medidas de reintegração.
Na ação eleitoral, o MPE pede a suspensão dos desligamentos enquadrados nos critérios apresentados e a reintegração dos trabalhadores, com restabelecimento de salários, benefícios e vínculo previdenciário. Também pede a proibição de novas dispensas sem justa causa de empregados vinculados a projetos da AADESAM durante o período eleitoral. 0600830-86.2026.6.04.0000.pdf
Roberto Cidade é citado no processo
O governador Roberto Cidade aparece formalmente como requerido na ação, ao lado de Serafim Corrêa, do Estado do Amazonas, de William Alexandre Silva de Abreu e da própria AADESAM.
A Procuradoria sustenta que os elementos reunidos justificam a adoção de medidas cautelares e a preservação das provas para eventual Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE).
Até o momento, porém, o processo está em fase de investigação e coleta de elementos. A inclusão de Roberto Cidade como requerido e as alegações apresentadas pelo MPE não equivalem a condenação ou reconhecimento definitivo de abuso de poder político.
A própria documentação mostra que a Procuradoria pretende obter os registros necessários para aprofundar a apuração e, posteriormente, avaliar o ajuizamento da ação eleitoral principal.
O caso, portanto, coloca sob escrutínio da Justiça Eleitoral uma movimentação de centenas de trabalhadores da AADESAM justamente na largada do período de restrições eleitorais, enquanto o MPE busca saber se houve apenas reorganização administrativa ou utilização da estrutura pública com finalidade eleitoral.
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