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Lazinha Martins

Estamos emocionalmente exaustos ou apenas nos acostumamos a viver no limite?

Entre as cobranças da rotina e a necessidade de dar conta de tudo, muitas pessoas negligenciam a própria saúde emocional sem perceber os impactos dessa sobrecarga.
Unsplash

Vivemos em uma rotina cheia de compromissos. Precisamos trabalhar, cuidar da família, cumprir responsabilidades e atender às expectativas de outras pessoas. Com tantas exigências, muitas vezes deixamos nossa saúde emocional para depois.

Mas será que estamos emocionalmente exaustos ou apenas nos acostumamos a viver no limite?

O esgotamento emocional nem sempre aparece de repente. Ele pode começar com sinais discretos. Entre eles estão o cansaço constante, a irritabilidade, a dificuldade para dormir e a falta de concentração.

Também podemos sentir desânimo e perder o interesse por atividades que antes nos davam prazer. Mesmo assim, continuamos cumprindo nossas obrigações.

Com o tempo, podemos acreditar que esse sofrimento faz parte da vida adulta. No entanto, estar conseguindo realizar as tarefas do dia a dia não significa que estamos bem.

Estar dando conta de tudo não significa, necessariamente, estar bem.

Quando ignoramos nossos próprios limites

Muitas pessoas sentem culpa quando precisam descansar. Outras têm dificuldade para dizer não ou pedir ajuda. Isso pode acontecer porque aprendemos a valorizar a produtividade e a considerar a força como a capacidade de suportar qualquer situação.

Entretanto, ultrapassar os próprios limites continuamente pode trazer consequências para a saúde emocional.

Os pesquisadores Christina Maslach, Wilmar B. Schaufeli e Michael P. Leiter estudaram o esgotamento ocupacional. Em um artigo científico publicado em 2001, eles abordaram aspectos como a exaustão emocional e o distanciamento mental em relação ao trabalho.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) também reconhece o burnout como um fenômeno ocupacional associado ao estresse crônico no trabalho que não foi administrado adequadamente.

É importante lembrar que nem todo cansaço emocional significa burnout. Por isso, precisamos considerar os sintomas, sua duração e as condições em que aparecem.

Além disso, não precisamos esperar chegar ao limite para buscar ajuda. Reconhecer os primeiros sinais de sofrimento é uma atitude importante de cuidado.

A cobrança de dar conta de tudo tem um preço

Na vida cotidiana, muitas pessoas tentam desempenhar bem todos os seus papéis. Querem ser bons profissionais, familiares presentes, parceiros atenciosos e amigos disponíveis.

O problema começa quando essas expectativas deixam pouco espaço para o descanso e para as próprias necessidades.

Além disso, a sobrecarga não depende apenas da organização pessoal. As condições de trabalho, as dificuldades financeiras e a falta de apoio também podem afetar a saúde emocional.

Por isso, nem sempre basta organizar melhor a rotina. Em algumas situações, precisamos dividir responsabilidades, rever prioridades e estabelecer limites.

Reconhecer que não conseguimos resolver tudo sozinhos também faz parte do amadurecimento emocional.

Como cuidar da saúde emocional?

O cuidado emocional pode começar com atitudes simples. O mais importante é perceber as próprias necessidades e buscar mudanças possíveis na rotina.

1. Reconheça os sinais de sobrecarga.

Observe como você tem se sentido. O cansaço continua mesmo depois do descanso? Você está mais irritado ou desanimado? Tem dificuldade para dormir ou se concentrar?

Essas mudanças merecem atenção, principalmente quando persistem ou prejudicam sua rotina. Observar os sinais não significa fazer um autodiagnóstico, mas reconhecer quando precisamos de apoio.

2. Reveja suas prioridades.

Nem tudo precisa ser resolvido imediatamente. Algumas tarefas podem esperar, enquanto outras podem ser compartilhadas.

Por isso, procure identificar o que é realmente necessário e o que pode ser reorganizado. Respeitar os próprios limites não significa abandonar responsabilidades.

3. Reserve momentos para descansar.

O descanso não deve acontecer apenas quando todas as tarefas terminam. Ele é uma parte importante do cuidado com a saúde.

Sempre que possível, procure dormir bem, movimentar o corpo e realizar atividades prazerosas. Pequenas pausas também podem ajudar a reduzir a tensão acumulada.

Outra possibilidade é praticar exercícios de atenção ao momento presente. Apoie os pés no chão, perceba sua respiração e observe os sons e as sensações ao seu redor.

Essas técnicas podem ajudar a direcionar a atenção para o presente. No entanto, não substituem o acompanhamento profissional quando o sofrimento persiste.

4. Aprenda a estabelecer limites.

Dizer não pode ser difícil, especialmente quando temos medo de decepcionar alguém. Ainda assim, precisamos reconhecer que não podemos estar disponíveis o tempo inteiro.

Estabelecer limites permite cuidar das relações sem abandonar as próprias necessidades. Também ajuda a distribuir responsabilidades de maneira mais equilibrada.

5. Procure apoio quando precisar.

Conversar com alguém de confiança pode ajudar a organizar os pensamentos e diminuir a sensação de isolamento.

Além disso, a psicoterapia oferece um espaço de escuta e reflexão. Com o acompanhamento de um profissional, podemos compreender melhor nossas emoções, identificar padrões de comportamento e desenvolver formas mais saudáveis de enfrentar as dificuldades.

Quando procurar ajuda psicológica?

Não precisamos esperar que o sofrimento se torne insuportável para procurar atendimento.

Se o cansaço persiste, o desânimo aumenta ou o sono e a concentração ficam prejudicados, vale buscar uma avaliação profissional.

Também é importante observar quando perdemos o interesse pelas atividades cotidianas ou começamos a nos afastar das pessoas de quem gostamos.

No Brasil, é possível procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) para receber orientação pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) também fazem parte da rede pública de atendimento em saúde mental.

A busca por ajuda não representa fraqueza. Pelo contrário, demonstra que reconhecemos a importância de cuidar de nós mesmos.

Até quando vamos considerar normal viver esgotados?

Precisamos repensar a ideia de que ser forte significa suportar tudo em silêncio.

Ser responsável não significa estar disponível o tempo inteiro. Ser competente não significa nunca se cansar. E cuidar das pessoas não deveria exigir que ignorássemos nossas próprias necessidades.

Por isso, é importante construir uma relação mais saudável com nossas expectativas e responsabilidades. Descansar é necessário. Pedir ajuda é legítimo. Reconhecer o sofrimento também é uma forma de cuidado.

Talvez a pergunta não seja apenas quanto ainda conseguimos suportar. Talvez seja necessário perguntar por que esperamos chegar ao limite antes de nos permitirmos parar.

Porque não basta conseguir dar conta da vida. Precisamos encontrar maneiras de vivê-la sem deixar nossa saúde emocional sempre para depois.

Referências para aprofundamento

http://Maslach, C.; Schaufeli, W. B.; Leiter, M. P. Job Burnout. Annual Review of Psychology, 2001. “Acessar o artigo científico” (https://doi.org/10.1146/annurev.psych.52.1.397).

http://- Organização Mundial da Saúde (OMS). Burn-out an occupational phenomenon: International Classification of Diseases, 2019. “Ler a publicação da OMS” (https://www.who.int/news/item/28-05-2019-burn-out-an-occupational-phenomenon-international-classification-of-diseases).

http://- Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). Doing What Matters in Times of Stress: An Illustrated Guide, 2021. “Acessar o guia de manejo do estresse” (https://www.paho.org/en/documents/doing-what-matters-times-stress-illustrated-guide).

http://- American Psychological Association (APA). Healthy Ways to Handle Life’s Stressors. “Consultar orientações sobre manejo do estresse” (https://www.apa.org/topics/stress/tips).

http://Ministério da Saúde. Síndrome de Burnout. “Consultar informações do Ministério da Saúde” (https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/sindrome-de-burnout).

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