Sem oxigênio: o que pensam aqueles que têm que decidir quem vive e quem morre

Sem oxigênio: o que pensam aqueles que têm que decidir quem vive e quem morre

Na busca frenética por informações, médicos e gestores trocavam mensagens. Não havia previsão para quando o oxigênio chegaria.

O dilema estava posto: dividir os cilindros individuais de reserva com mais pacientes, e torcer que novos chegassem a tempo ou priorizar alguns e deixar outros de lado com intervenções diferentes?

“Eu tinha oxigênio para dez pacientes, mas mais de 30 pessoas precisavam dele. Percebi que não podia dividir com todos. Essa escolha é mais do que que ‘difícil’. Imagine você olhar para alguém e decidir tirar-lhe o oxigênio, deixar que talvez morra para tentar salvar outra. Nada é mais difícil que isso”

As horas passavam lentamente, e nada de chegar a entrega de mais cilindros de oxigênio. Mortes começaram a ocorrer em todos os lugares.

Na ausência de perspectivas, os médicos chegaram a usar morfina para aliviar a angústia de pacientes à beira da morte.

Em outro hospital, um médico encontrou um clima de uma tragédia ainda mais próxima: um colega de equipe que estava internado acabara de morrer. pela falta de oxigênio.

“Quando as mortes começaram a ocorrer, e passaram a se repetir rapidamente; os pacientes viam tudo e se desesperavam”

“Cheguei um pouco depois do oxigênio ter sido entregue. Vi todos tristes, achava que estavam abatidos pelo médico e descobri que dois trabalhadores do local morreram também naquela noite”

 

No hospital, ninguém imaginava que fosse faltar oxigênio

Uma técnica de enfermagem que estava de plantão naquela fatídica noite relata que os profissionais do hospital já tinham notado que havia pouco oxigênio.

Assim, começaram um “racionamento” para garantir atendimento a todos.

Naquela madrugada, a regra era a superlotação. Uma das enfermeiras precisou tentar reanimar um paciente no chão por falta de um espaço propício.

“Enquanto [o coração de um] parava, o médico atendia outro em estado grave ali perto. Todos os casos se agravaram com a situação, e muitos já estavam em condições graves demais”

Diante da escassez do insumo, uma médica precisou reduzir a oferta de oxigênio aos pacientes. Só assim conseguiu passar a noite sem esgotar o estoque de oxigênio.

 

“Nós diminuímos a oferta para todos até dar 92% [de saturação] e economizarmos. Quando os cilindros iam acabar, o oxigênio chegou. Mas já estávamos nos organizando para ambuzar [nome dado à ventilação manual]”

 

“A gente regulava a quantidade de oxigênio, mas, no fundo, ninguém acreditava que deixariam chegar àquele ponto. Não há como definir a apreensão que sentimos ao perceber que chegava a madrugada, que uma UTI estava cheia, e que o oxigênio acabaria sem previsão de retorno. Teve gente chorando”, disse a Técnica de enfermagem.

“Falaram que ambuzamos [como se chama o processo de ventilação manual]; sim, nós fizemos isso, mas cansa. Não tínhamos gente o suficiente para revezar, e o efeito prático não é o mesmo do oxigênio. Não tínhamos mais o que fazer, tinha hora que era assistir e torcer para o paciente suportar um pouco mais”, relatou Técnica de enfermagem.

Reflexões e revolta

Diante da tragédia, a angústia se instaura. Após aquela noite, um profissional conta que deixou o plantão certo de que não voltaria mais.

De cabeça fria, mudou de ideia.

Um outro médico não esconde a indignação diante do que testemunhou naquela madrugada. Em sua opinião, foi “desumana” a responsabilidade que o poder público e a sociedade jogaram sobre a classe médica.

“Diziam muito ao longo da pandemia que se os comércios fossem fechados o Brasil teria de escolher entre morrer de fome ou pelo vírus. Agora, eles estão morrendo e passaram para nós, da área da saúde, essa escolha. Na prática é isso que ocorre quando se precisa de oxigênio ou de uma ventilação e não tem para todos: nós é que temos de escolher quem vai viver e ainda somos desvalorizados”.

“Não fizemos medicina para isso”.

Com informações do UOL.

Foto: Divulgação