Os dados mais recentes, lançado em janeiro, da balança comercial brasileira mostram um início de ano aquecido para o comércio exterior. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), as exportações cresceram 43,8% na média diária até a segunda semana de janeiro de 2026, na comparação com o mesmo período de 2025. No acumulado do mês, o país registrou exportações de US$ 10 bilhões e importações de US$ 5,9 bilhões, com superávit de US$ 4,1 bilhões. Apenas na segunda semana de janeiro, o saldo positivo foi de US$ 2 bilhões.
O avanço expressivo reacende o debate sobre quais empresas conseguem, de fato, transformar momentos favoráveis do comércio internacional em crescimento sustentável. Embora o aumento das exportações seja frequentemente associado a fatores como câmbio, demanda externa e competitividade do produto, especialistas apontam que o desempenho não é distribuído de forma homogênea entre os exportadores.
Para Vanessa Fernandes Tobias, advogada especialista em estruturação nacional e internacional de empresas e patrimônios, com escritórios sediados no Brasil e exterior o crescimento das exportações tende a beneficiar mais quem já vinha se preparando estruturalmente para operar fora do Brasil. “Empresas que crescem no comércio internacional quase nunca são surpreendidas pelo próprio crescimento. Quando os números disparam, isso normalmente favorece quem já organizou governança, estrutura societária e controles antes de expandir”, afirma.
Segundo a especialista, o dado de 43,8% de crescimento das exportações revela uma diferença clara entre empresas. Algumas conseguem ampliar presença internacional, abrir novas rotas comerciais e lidar com múltiplas jurisdições de forma organizada. Outras até aumentam vendas no curto prazo, mas passam a enfrentar conflitos societários, riscos fiscais, exposição patrimonial excessiva e dificuldades operacionais decorrentes da falta de estrutura.
Esse cenário ganha relevância adicional em 2026, ano em que se inicia a transição da Reforma Tributária do consumo, com a introdução do IBS e da CBS. As novas regras exigem maior rastreabilidade, padronização de documentos fiscais e integração de sistemas, aumentando o nível de complexidade para grupos empresariais que atuam em cadeias produtivas internacionais.
De acordo com Tobias, estruturas como holdings patrimoniais, sociedades de participação e, em muitos casos, entidades no exterior, não devem ser vistas como atalhos ou instrumentos de evasão. “Essas estruturas, quando lícitas e bem desenhadas, funcionam como ferramentas de governança. Elas ajudam a separar operação, patrimônio e controle, organizam riscos, facilitam sucessão e dão previsibilidade às decisões estratégicas em ambientes internacionais”, explica.
O debate sobre estruturas no exterior também foi impactado pela Lei 14.754, em vigor desde 2024, que alterou a tributação de rendimentos e lucros de entidades fora do país. A norma reduziu zonas de incerteza e reforçou a centralidade da transparência e do compliance fiscal. Para especialistas, empresas e famílias empresárias que já mantinham planejamento patrimonial estruturado sentiram menos impacto com as mudanças, enquanto aquelas que improvisavam passaram a enfrentar maior insegurança jurídica e custos de adaptação.
Nesse contexto, o crescimento das exportações observado no início de 2026 evidencia que vender para fora é apenas uma parte do desafio. Crescer globalmente exige capacidade de lidar com complexidade regulatória, governança multinível e continuidade no longo prazo. A diferença entre empresas que conseguem sustentar esse movimento e aquelas que ficam pelo caminho está menos no mercado externo em si e mais nas decisões societárias e patrimoniais tomadas antes do crescimento acontecer.
Sobre a Vanessa Fernandes Tobias
Vanessa Fernandes Tobia é advogada, sócia fundadora da Fernandes Tobias Advocacia e Fernandes Tobias Global Advisors, especialista em estruturação nacional e internacional de empresas e patrimônios, com escritórios sediados no Brasil e exterior.
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