O filme “Cara-de-Barro”, que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (22), marca uma nova abordagem no universo cinematográfico da DC Comics. Primeiro longa de terror do DCU, universo desenvolvido por James Gunn, a produção deixa em segundo plano a tradicional fórmula dos filmes de super-heróis para explorar o horror físico e psicológico a partir da história de um dos vilões do Batman.
Embora não seja a adaptação mais aguardada pelos fãs do Cavaleiro das Trevas, especialmente por trazer um personagem menos conhecido do grande público do que Coringa e Pinguim, o longa cumpre a proposta de terror. A narrativa investe em momentos de tensão e em cenas de impacto que podem incomodar espectadores mais sensíveis.
A trama acompanha Matt Hagen, interpretado por Tom Rhys Harries, um ator de Gotham City que começa a conquistar espaço em Hollywood. A trajetória promissora, porém, é interrompida quando ele se envolve com a mulher do criminoso Markos Szabo, vivido por David Dencik. Como retaliação, Hagen é atacado pela quadrilha do gângster e tem o rosto desfigurado.
A violência é apenas o início de uma sequência de perdas. Vítima de um golpe financeiro, o ator fica sem dinheiro e é abandonado por aqueles que o cercavam. Desesperado para recuperar a aparência e retomar a carreira, ele aceita participar de um experimento conduzido pela médica Caitlyn Corr, interpretada por Naomi Ackie, que promete reconstruir seu rosto.
O procedimento apresenta resultados positivos inicialmente, mas logo surgem efeitos colaterais inesperados. As alterações ultrapassam a aparência física e começam a comprometer também a mente do protagonista. À medida que perde o controle sobre si mesmo, Hagen passa a utilizar a capacidade de imitar outras pessoas para perseguir aqueles que considera responsáveis por sua ruína.
O desejo de vingança, no entanto, aprofunda sua transformação em uma figura cada vez mais instável e perigosa. O filme acompanha, assim, a passagem de um homem disposto a recuperar a própria vida para um personagem consumido pela violência.
Terror acima do universo dos super-heróis
Apesar de subverter elementos tradicionais das produções de super-heróis, “Cara-de-Barro” não alcança a mesma densidade dramática de “Coringa”. A proposta é menos centrada na construção de um retrato social e psicológico abrangente e mais interessada em funcionar como uma obra de terror ambientada em Gotham, cidade associada ao universo do Batman.
O principal mérito está no roteiro, assinado por Mike Flanagan, conhecido por trabalhos como “Doutor Sono” e “A Vida de Chuck”, em parceria com Hossein Amini. Inspirados em dois episódios de “Batman: A Série Animada” que apresentam a origem do personagem, os roteiristas constroem uma narrativa de ascensão e queda, na qual a deterioração física acompanha o agravamento moral do protagonista.
Ao contrário do que ocorre em “Coringa”, a história não se empenha em tornar Hagen uma figura digna de compaixão. A escolha contribui para que sua transformação seja acompanhada com crescente apreensão, sem que a violência praticada pelo personagem seja facilmente justificada pelas tragédias que enfrenta.
A produção também dialoga com clássicos e obras contemporâneas do horror corporal, como “A Mosca”, “A Substância” e “Darkman: Vingança sem Rosto”, filme dirigido por Sam Raimi antes de sua popularização com a trilogia do Homem-Aranha estrelada por Tobey Maguire.
Embora não apresente uma proposta inteiramente original, “Cara-de-Barro” utiliza essas referências de maneira funcional. O resultado é um filme que encontra no horror físico e na degradação psicológica os principais instrumentos para contar a origem de um vilão da DC, abrindo espaço para uma abordagem menos convencional dentro do universo cinematográfico da editora.






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