Lembro quando assumi o mandato de vereador em Manaus. Era início de 2007 e o prefeito de Manaus, há época, Serafim Corrêa (PSB) vivia uma profunda crise de popularidade por conta de um projeto de lei que atualizava a planta de valores do IPTU.
Já assumi como líder do prefeito e, em meio a essa crise, descobri o inusitado.
O projeto de lei aumentava o IPTU de poucos, por um lado, e isentava milhares de famílias, por outro.
Acontece, que o aumento atingia empresários, juízes, promotores, desembargadores, donos de jornais, rádios e TVs e isentava desempregados, garis, pedreiros, ambulantes.
Com as elites incomodadas a avalanche de desinformação era tanta que as pesquisas de avaliação nos mostravam que até os isentos do pagamento criticavam o prefeito pelo aumento.
Lembro do episódio porque percebo algo parecido acontecendo hoje no Brasil.
Circula na internet um vídeo em que um homem diz que Lula é melhor governante e que o país melhorou mas que para eleições ele apoia Bolsonaro porque “aí é diferente”.
O vídeo circula como “meme” mas é
expressão do pensamento de milhões de brasileiros. Tem os que negam a melhora do país por cegueira ou má-fé e também os que reconhecem a melhora e seguem com Bolsonaro, “porque Lula é Ladrão” ou sei lá o porquê.
Estamos vivendo um tempo em que o desempregado que ganhou um emprego, o investidor que viu a bolsa bater recordes sucessivos, o comerciante que vende mais, o trabalhador que está comprando comida mais barata e que já consegue até comer uma picanha e tomar uma cervejinha, seguem achando que viviam melhor antes.
É irracional mas é a realidade.
No imaginário de metade da população, o desemprego em 7,6% (o menor desde 2015), o crescimento de 3% do PIB (acima do projetado), o Brasil avançado para 9a. economia do mundo (o governo Bolsonaro havia nos feito recuar para a 11a.), a comida mais barata e o salário mínimo com ganho real de 3%, significam nada diante dos seus preconceitos e da sua paixão messiânica pelo Mito.
O fato é que o país melhorou, mas a população continua dividida. As pesquisas mostram que quem era Lula, segue Lula e quem era Bolsonaro, segue Bolsonaro, mesmo a vida estando melhor agora.
É ano de um esforço hercúleo e eficiente da estrutura de comunicação do governo para que as boas novas cheguem ao imaginário de parcela racional dos que votaram em Bolsonaro.
As eleições municipais tendem a ser o primeiro round desse esforço, com Bolsonaro agindo para construir vitórias de candidatos identificados com a sua imagem e seu projeto e o presidente Lula tentando transferir os bons resultados do seu governo para candidaturas alinhadas.
Que a realidade se imponha sobre a mentira e a manipulação de informações.
Marcelo Ramos, advogado, professor e consultor, foi deputado federal, ex-vice-presidente e presidente em exercício da Câmara dos Deputados e do Congresso Nacional.
Foto: Sérgio Lima









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