Quando se fala em terrorismo, a imagem mais comum é a da resposta. Sirenes, isolamento, equipes armadas, explosões controladas. O que quase nunca aparece é o que acontece antes. E é justamente nesse antes que muitas tragédias deixam de acontecer.
Atuo há mais de duas décadas na área de detecção de explosivos com cães. Nesse tempo, aprendi que o papel mais importante da segurança não é reagir a um ataque, mas impedir que ele chegue a existir. Cães treinados operam exatamente nesse espaço silencioso entre a ameaça e o dano.
Em contextos de terrorismo, o tempo é um fator crítico. Quanto mais cedo um risco é identificado, maiores são as chances de neutralizar sem vítimas. O cão de detecção atua nesse ponto inicial. Ele não confirma intenções, não julga cenários e não reage ao medo. Ele identifica um odor específico e responde de forma previsível. Essa previsibilidade salva-vidas.
Existe uma percepção equivocada de que o cão age por instinto. Na realidade, o que é visto como habilidade natural é resultado de método. O treinamento transforma o instinto em comportamento controlado. O cão aprende a reconhecer um conjunto específico de partículas químicas e a sinalizar de maneira passiva, sem tocar, sem excitação, sem ruído. Em explosivos, silêncio e controle são tão importantes quanto a detecção em si.
Em situações de terrorismo, essa precisão faz toda a diferença. Um artefato pode estar em uma mochila, em uma sacola abandonada ou integrado a um ambiente aparentemente comum. O cão não precisa de pistas visuais. Ele não depende de imagens ou interpretações. Ele trabalha com o que não é visível ao ser humano. E faz isso de forma consistente, desde que o treinamento seja rigoroso e constantemente validado.

Outro aspecto pouco discutido é o impacto da prevenção no comportamento coletivo. Quando um ataque é evitado antes de se concretizar, não há pânico, não há interrupção da vida urbana e não há trauma coletivo. A cidade continua funcionando. O transporte segue operando. Eventos acontecem. Essa normalidade é o maior indicador de que a segurança funcionou.
Também é importante entender que cães treinados não atuam sozinhos. Eles fazem parte de um sistema. Um sistema que envolve planejamento, protocolos claros e tomada de decisão baseada em evidência. O cão sinaliza. A partir dali outras etapas entram em ação. Quanto mais cedo esse processo começa, menor é o risco para todos os envolvidos.
Em períodos de alerta elevado, como os vividos por diversas cidades europeias nos últimos anos, a presença de equipes de detecção canina ajudou a reduzir o número de intervenções emergenciais e a evitar escaladas desnecessárias de tensão. Muitas vezes, o simples fato de confirmar rapidamente que não há um artefato permite liberar um espaço e evitar reações em cadeia que poderiam gerar acidentes ou confrontos.
Esse trabalho de detecção não tem caráter heroico. Ele exige disciplina, repetição e responsabilidade. O erro não é uma opção aceitável. Por isso, a validação constante é parte essencial do processo. É preciso provar, repetidamente, que o animal mantém o mesmo nível de desempenho em ambientes diferentes e sob pressão real.
Quando uma tragédia acontece, ela ocupa manchetes. Quando uma tragédia é evitada, quase ninguém percebe. Mas é nesse silêncio que mora o verdadeiro valor do trabalho preventivo. Cães treinados evitam tragédias maiores não porque são extraordinários, mas porque operam com método em um sistema que prioriza a vida antes do espetáculo.
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