Pode comer pão? Comer só ovo e fruta é válido? A atitude de participantes do BBB 22 em relação à comida levantou debate entre os fãs do programa. Ainda que seja impossível diagnóstico sem exame ou acompanhamento de profissionais de saúde, nas redes sociais houve quem apontasse a hipótese transtorno alimentar após participantes do reality adotarem dietas restritivas ou longos períodos em jejum.
O g1 conversou com especialistas em busca de explicações sobre o que são transtornos alimentares, quais os fatores de risco, como identificá-los e o que fazer se você ou alguém próximo estiver sofrendo por causa de um deles.
O que é um transtorno alimentar?
O psiquiatra Eduardo Aratangy, do Programa de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas da USP, explica que um transtorno alimentar é algum hábito ligado à alimentação que traga prejuízos físicos ou psíquicos.
“[É] qualquer comportamento alimentar que esteja fora do âmbito comum de que o alimento é fonte de nutrição – mas, também, [de que] é fonte de prazer, de sociabilidade, de engajamento de relacionamentos”, diz. “[A comida] tem um papel que não é só nutricional”.
“Havendo alguma questão ligada a isso que traga prejuízo para o indivíduo ou sofrimento já é um indicativo que se trata de um transtorno alimentar”, aponta o médico.
Quais são os sinais de que alguém tem um transtorno alimentar?
A nutricionista Fernanda Imamura, que colabora com o Programa de Atendimento, Ensino e Pesquisa em Transtornos Alimentares na Infância e Adolescência, também do IPq-USP, lista alguns sinais que podem indicar uma relação transtornada com a comida ou, se mais graves, um transtorno alimentar:
- Pensamentos obsessivos com comida ou com o próprio corpo (a pessoa come e já acha que vai ganhar peso imediatamente)
- Culpa ou arrependimento ao se alimentar ou após comer
- Pensamentos de compensação (“se eu comi isso, na próxima refeição eu não vou poder comer a quantidade que eu queria” ou “já que eu comi o bolo, eu vou ter que me matar de fazer academia mais tarde”, diz a nutricionista)
- Medo de se alimentar ou da comida
- Sensação de perda de controle ao comer
- Relacionar a comida a um valor moral: separar os alimentos entre “bons” e “ruins” ou medir seu próprio valor por causa do que comeu (“se eu comi uma salada, então eu sou uma pessoa boa, sou dedicada, tenho força de vontade. Se eu comi um doce, sou desleixada, não tenho força de vontade, sou uma péssima pessoa. Isso também acontece”, explica Imamura).
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O psiquiatra Eduardo Aratangy, da USP, concorda. “Quando a gente está diante de uma preocupação excessiva, por exemplo, com peso e corpo, isso já é um embrião para anorexia”, diz
“Quando a necessidade de controle alimentar se torna patológica, então é uma obsessão, e o indivíduo fica preso nesse pensamento – e essa questão se torna focal na vida, está diante de um transtorno alimentar”, completa o médico.
Uma dieta restritiva pode levar a um transtorno alimentar?
Todos os especialistas ouvidos pelo g1 são unânimes ao dizer que sim. Ainda que nem sempre aconteça, uma dieta restritiva pode servir como gatilho para um transtorno alimentar.
“Para quem tem a predisposição para um transtorno alimentar, especialmente anorexia, a instalação de uma dieta restritiva é o principal gatilho”, afirma Eduardo Aratangy, do IPq-USP.
“A pessoa começa uma restrição. E aí tem uma ‘recompensa’, um ‘benefício’ – que é a perda de peso. Nas pessoas em geral, isso tem um limite, vai até certo ponto. Mas, em quem tem anorexia, ou em quem vai desenvolver anorexia, é como se criasse um sistema de recompensa sem fim: que emagrecer é bom, independentemente do quanto ou até onde. É como se a pessoa perdesse esse limite fisiológico”, detalha o psiquiatra.
O psiquiatra José Carlos Appolinário, da UFRJ, concorda:
“Cada pessoa reage diferente a esse comportamento, mas o uso de dietas restritivas está associado ao desencadeamento de comportamentos alimentares alterados. Não necessariamente isso pode evoluir para um transtorno alimentar, mas é um comportamento alimentar alterado”, diz.
Ainda que todo transtorno alimentar seja causado por vários fatores, a dieta restritiva costuma ser o principal entre eles, explica a nutricionista Fernanda Imamura, da USP.
“Não é que só o fato de fazer dieta faz com que alguém desenvolva o transtorno. Mas a gente costuma falar que todo transtorno começou com uma dieta, começou com uma restrição”, diz Imamura.
Um outro ponto que tem sido discutido por telespectadores do BBB é se os participantes estariam fazendo o jejum intermitente – prática que geralmente consiste em limitar a alimentação a determinadas horas do dia.
“O jejum intermitente na verdade é mais uma dieta restritiva. Por mais que pareça ser algo super inovador, a gente observa como mais uma dieta em que você fica um tempo sem se alimentar”, opina Fernanda Imamura.
“Existem até pessoas que podem ter emagrecimento com jejum, isso pode acontecer, mas o que eu acho que tem que ficar bem claro são esses riscos – pode existir emagrecimento? Pode. Mas pode ter vários riscos da restrição alimentar: por exemplo, ser um gatilho para a compulsão alimentar, da piora com a relação com a comida, de ficar pensando o tempo todo em comida, e até prejuízos físicos”, lista a nutricionista.
“Dependendo do jejum e da frequência, você pode ter tontura, mal-estar, dor de cabeça, anemia, prejuízo na saúde dos ossos. Tem até estudos hoje em dia que mostram que o jejum intermitente não é superior a outras dietas de controle de calorias. Não é uma abordagem inovadora”, afirma.
Qual a relação entre uma dieta restritiva e compulsão?
A dieta restritiva também pode levar a episódios de compulsão alimentar, dizem os especialistas.
“Os estudos científicos mostram que, em situações de restrição alimentar, a pessoa tem como se fosse uma alimentação compensatória – é como se o organismo acendesse um sinal de alerta”, explica José Carlos Appolinário, da UFRJ.
“O organismo sempre trabalha para você se manter bem alimentado, então, logo depois que termina essa restrição, a pessoa tem um desejo muito grande de se alimentar, para justamente repor aquilo – nessa compensação é que aparece uma compulsão alimentar”, completa o psiquiatra do Rio.
A nutricionista Fernanda Imamura, do IPq, completa:
“A gente já sabe de estudos que toda restrição pode levar a compulsão. A compulsão nesse caso não [é] necessariamente compulsão alimentar de fato, mas esse comportamento mais compulsivo com a comida”, diz.
Esse tipo de compulsão é o que acontece, por exemplo, com pessoas que fazem dietas que restringem o consumo de carboidratos: elas passam a querer ainda mais esse tipo de alimento.
“Quando a gente faz uma restrição, isso acaba gerando um gatilho para o nosso cérebro, e ele fica em sinal de alerta. O nosso corpo não identifica se você está fazendo isso [restringindo alimentação] porque quer emagrecer ou porque está vivendo uma escassez de comida”, explica Imamura.
“Se a gente estivesse vivendo uma escassez de comida, o nosso corpo tem que criar mecanismos para sobreviver nesse momento – e a compulsão é um desses mecanismos. O corpo entende que, como está faltando comida, é aí que tem que comer mais, para garantir que vai ter depois. E acaba tendo esse descontrole. Esse ciclo da restrição e compulsão já é muito bem estabelecido”, afirma a nutricionista.
(Para ter o diagnóstico de um transtorno compulsão alimentar de fato – e não apenas de um episódio compulsivo – é necessário atender a certos critérios, como comer uma quantidade acima do que seria esperado em certa circunstância e em um período de tempo curto, explica Imamura).
Como eu posso ajudar alguém com suspeita ou diagnóstico de transtorno alimentar?
Os especialistas recomendam, principalmente, incentivar a pessoa a buscar ajuda especializada.
“Eu acho que precisa ter bastante cuidado na hora de abordar esse assunto com quem está em sofrimento, porque a primeira coisa que a pessoa pode fazer é ficar na defensiva”, explica Fernanda Imamura.
“[O que se deve fazer é] principalmente oferecer ajuda e acolhimento: falar que a pessoa pode contar com você – e [que], se ela quiser conversar sobre a alimentação dela, ela pode conversar com você. Mas eu acho que o principal, dependendo do nível de intimidade, [é] incentivar a pessoa a buscar ajuda especializada”, diz.
Oferecer ajuda pode incluir, também, acompanhar a pessoa à consulta com um profissional, afirma a nutricionista.
“Para quem tem um transtorno alimentar, buscar ajuda por conta própria é muito difícil. Normalmente as pessoas vêm com ajuda de alguém: um familiar, um amigo que se dispôs a vir na consulta junto. Depender de ela buscar ajuda sozinha é bem complicado, bem difícil mesmo”, relata Imamura.
Appolinário, da UFRJ, lembra que há um estigma muito grande associado a um transtorno mental – inclusive os alimentares. Por isso, é essencial não expor a privacidade de quem está sofrendo.
“Existe muito estigma, muito preconceito relacionado a isso. As pessoas ficam falando muito, comentando muito, e isso aumenta mais ainda as dificuldades da pessoa de procurar ajuda”, comenta.
“[Tem que] respeitar uma certa privacidade da pessoa, [em vez] de ficar expondo a situação para todo mundo. Ser um pouco mais discreto. Isso dificulta muito a aceitação”, afirma.
“Ocorrem muito mudanças de comportamento em pessoas jovens – a pessoa comia de uma certa forma, passou a restringir muito, passou a ter dificuldade de se alimentar na frente de outras pessoas, a alimentação passa a ser problemática, secreta”, diz.
“Preocupação excessiva com o corpo, com a forma corporal: isso tudo pode fazer com que seja um sinal de alerta. Não quer dizer que a pessoa tenha um transtorno alimentar. A pessoa deve ser avaliada”, recomenda.




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