O varejo físico brasileiro encerrou o terceiro trimestre de 2026 com queda de 1,9% no fluxo de consumidores em relação ao mesmo período do ano passado. Os dados são do Índice de Intenção de Compra do Varejo (IICV SEED), divulgado pela Seed Digital, e apontam uma desaceleração progressiva da movimentação nas lojas ao longo dos três meses. Em julho, a retração foi de 1,1%. Em agosto, chegou a 1,5% e, em setembro, atingiu 3,1%.
O resultado reflete um cenário de pressão sobre o orçamento das famílias, marcado pela manutenção da taxa Selic em níveis elevados, pelo encarecimento do crédito e pelo aumento da preocupação dos consumidores com a quitação de dívidas. A esses fatores somaram-se a instabilidade política e as chuvas atípicas associadas ao fenômeno El Niño, que afetaram a mobilidade urbana e reduziram a frequência de visitas aos estabelecimentos comerciais.
Eleições e condições climáticas mudam comportamento dos consumidores
O calendário eleitoral e os eventos climáticos também tiveram impacto significativo sobre o movimento do comércio. Nos dias de votação do primeiro turno das eleições, o fluxo de consumidores caiu mais de 50% em comparação com datas comuns. Nas lojas de rua, a retração chegou a 64,1%, enquanto nos shopping centers foi de 54,8%.
Para Sidney Raulino, CEO da Seed Digital, o período apresentou uma concorrência incomum pela atenção dos consumidores, que passaram a reorganizar suas prioridades diante das incertezas econômicas e políticas.
“A reta final do terceiro trimestre colocou o varejo presencial diante de um cenário de volatilidade sem precedentes. Tivemos uma combinação forte entre a incerteza política e eventos climáticos extremos que alteraram radicalmente a rotina das cidades. O consumidor não apenas reduziu as idas ao comércio para focar no orçamento básico e na quitação de dívidas, como alterou totalmente sua rota nos dias de votação”, avalia Raulino.
Lojas de rua enfrentam deterioração, enquanto shoppings mostram recuperação
Na análise por canal de venda, o resultado acumulado foi negativo tanto para o comércio de rua quanto para os estabelecimentos localizados em shopping centers. Ambos encerraram o trimestre com retração de 1,9% na comparação anual, revertendo o desempenho positivo observado no mesmo período de 2025.
Apesar da igualdade nos resultados acumulados, a evolução mensal apresentou diferenças. As lojas de rua registraram deterioração contínua do fluxo entre julho e setembro. Já os shopping centers demonstraram maior capacidade de recuperação na reta final do trimestre.
A infraestrutura coberta, a segurança e a conveniência oferecidas pelos centros comerciais contribuíram para atrair consumidores em meio às instabilidades climáticas. O desempenho indica que fatores relacionados à experiência e às condições de acesso aos estabelecimentos ganharam relevância na decisão de compra presencial.
Sudeste registra maior retração; Sul é destaque positivo
O levantamento da Seed Digital também identificou diferenças importantes entre as regiões brasileiras. O Sudeste apresentou o pior resultado, com queda de 2,8% no fluxo de consumidores. O desempenho foi influenciado pelas condições climáticas desfavoráveis e pela maior facilidade de migração das compras presenciais para o comércio eletrônico.
O Nordeste registrou retração de 2,1%, enquanto Centro-Oeste e Norte apresentaram queda de 1,9% cada. Entre os fatores associados aos resultados estão o endividamento das famílias, a redução dos investimentos no agronegócio e as bases elevadas de comparação.
Na contramão do cenário nacional, a região Sul foi a única a encerrar o trimestre com crescimento, registrando alta de 1,6%. O resultado foi impulsionado pelo desempenho positivo de julho e agosto, embora tenha perdido força em setembro, quando tempestades severas afetaram a movimentação comercial.
Black Friday e Natal exigem maior eficiência nas vendas
Com a aproximação do quarto trimestre, tradicionalmente impulsionado pela Black Friday e pelas compras de Natal, o varejo enfrenta o desafio de recuperar o fluxo de consumidores e melhorar a conversão nas lojas.
Na avaliação de Sidney Raulino, a retomada dependerá menos da ampliação do número de visitantes e mais da capacidade dos lojistas de aproveitar as oportunidades de venda geradas pelo público que efetivamente chega aos estabelecimentos.
“Para o quarto trimestre, a recuperação do varejo físico dependerá da capacidade dos lojistas de transformar a experiência na loja. Embora a eventual desaceleração das apostas virtuais ajude a estancar a perda de renda das famílias, esse orçamento poupado deve ir primeiro para o pagamento de contas acumuladas. Por isso, cada cliente que entrar na loja precisa ser trabalhado com atendimento consultivo, agilidade e integração omnichannel”, conclui o empresário.
O cenário reforça a necessidade de estratégias comerciais mais eficientes, com atenção à jornada do consumidor, integração entre canais físicos e digitais e qualificação do atendimento. Diante de um público mais cauteloso com os gastos, a capacidade de converter visitas em vendas poderá ser determinante para o desempenho do comércio na reta final de 2026.
Leia mais
Gastos com candidaturas ultrapassaram R$ 11 bilhões nas eleições de 2026







Envie seu comentário