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Redes de pesca danificadas geram conflitos entre humanos e boto-vermelho no Amazonas

Agressões aos animais envolvem principalmente pescadores, por causa de redes danificadas e pela disputa de peixes.

Ao contrário de outros conflitos entre animais e humanos ao redor do mundo, em que os homens geralmente sofrem as consequências, na Amazônia esses conflitos costumam, quando comparados, ter efeitos mais negativos para a fauna.

Dos cinco mamíferos aquáticos que ocorrem na Amazônia, o peixe-boi, o tucuxi, o boto-vermelho e a ariranha estão classificados em categorias de ameaça (de extinção) pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). A lontra é a única espécie classificada como “menos preocupante”. As causas para a classificação de ameaça dessas espécies são diversas, mas aqui vamos abordar brevemente sobre a utilização do boto-vermelho no turismo e os conflitos com pescadores.

Com o advento e a popularização das redes de náilon na região, a captura acidental de filhotes de peixe-boi e dos golfinhos fluviais aumentou e se tornou um incidente comum. Proporcionalmente, aumentaram também as reclamações dos pescadores devido, principalmente, aos danos causados às redes e pelo roubo e estrago do pescado.

Os golfinhos não são usados como alimento na Amazônia brasileira como foi o peixe-boi, que até hoje ainda é caçado. No entanto, desde o final da década de 1990, o boto-vermelho passou a ser intensamente abatido para servir de isca na pesca da piracatinga, além de sofrer capturas acidentais em redes de pesca ao longo de toda a sua distribuição.

Conflitos entre pescadores e golfinhos

Diversos trabalhos e entrevistas com pescadores revelaram a antipatia e a raiva por esses animais, justificadas, segundo os entrevistados, por esses golfinhos atrapalharem a pesca e, quando enredados, por destruírem as artes de pesca.

Os pescadores esticam suas redes nos locais de passagem e onde ocorre maior quantidade de peixes, pontos em que os botos também buscam seu alimento, gerando inevitavelmente conflito pelo recurso e acidentes.

Segundo os pescadores, os golfinhos também podem remover e danificar grandes peixes capturados nas redes, inutilizando o pescado para uso comercial. Por conta disso, matar os golfinhos quando estão enredados e ainda vivos nas redes não é prática rara, porém não é quantificada.

Outro problema envolve os filhotes, que são extremamente vulneráveis às redes. O emaranhamento é considerado uma das principais causas de mortalidade no primeiro ano de vida desses golfinhos.

Lendas e superstições com botos

Além desse conflito direto, diversas lendas e superstições influenciaram historicamente e muitas vezes de forma negativa a percepção de muitos pescadores sobre o comportamento do boto, gerando raiva e preconceito que passa de uma geração para outra.

Por volta de 1997, teve início, de forma espontânea e lúdica, a interação de botos com uma menina que morava em um flutuante na cidade de Novo Airão. Esse município recebe muitos turistas no Amazonas, já que é a porta de entrada dos parques nacionais de Anavilhanas e do Jaú, conhecidos, entre outras coisas, por suas belezas naturais. Essa interação chamou a atenção das pessoas, cresceu e com o tempo se tornou uma atividade com extensa cadeia econômica e turística nos municípios de Manaus, Iranduba e Novo Airão, gerando não só recursos, mas também ciúmes e conflitos em diversos níveis da sociedade local.

Atualmente, existem nove flutuantes de interação no baixo rio Negro. Estudos com esses animais mostraram que cerca de 75-100 botos participam dessa atividade, se movimentando entre os diferentes flutuantes. Todos os botos registrados são machos, na sua maioria adultos. Esses animais também passaram a se aproximar de diversos flutuantes, inclusive os que funcionam como residência e restaurantes, e até mesmo em praias, na intenção de interagir e receber o peixe fácil das mãos das pessoas.

A familiaridade também estimula esses animais a se aproximarem de embarcações e das atividades de pesca com menos receio do que aqueles que não estão habituados aos humanos.

Por conta da má fama dos botos junto aos pescadores e alguns comunitários, e temendo que a atividade pudesse tomar rumos danosos aos animais, pesquisadores, ambientalistas e pessoas da sociedade civil, incluindo empreendedores de turismo com botos, se reuniram e elaboraram regras de ordenamento para essa atividade, de forma a proteger botos e turistas. Uma das premissas pensadas foi destacar para a sociedade que o boto vivo vale muito mais do que o boto morto e, que se bem ordenada, essa atividade pode gerar recursos para as comunidades ribeirinhas na região e ajudar na conservação e proteção dos botos da Amazônia no Brasil.

Assim, o Conselho Estadual de Meio Ambiente do Amazonas instituiu a Resolução nº 28, de 22 de janeiro de 2018. O documento estabelece as diretrizes e os procedimentos a serem observados na autorização e no desenvolvimento de atividades de interação de baixo impacto que envolva seres humanos e botos-vermelhos no estado do Amazonas.

Apesar das medidas de proteção e das diversas ações de educação ambiental e divulgação nas diferentes mídias, além do boto-vermelho ser uma espécie protegida por leis federais, diversos relatos e registros de maus-tratos e de matança desses golfinhos têm sido registrados em diferentes áreas no Amazonas. Inclusive nas áreas onde ocorre a interação entre seres humanos e botos-vermelhos.

Curumim, o boto com arpão no rosto

Recentemente, o fato mais emblemático e que gerou repercussão nacional e internacional foi o do boto Curumim, em Novo Airão. Curumim é bastante conhecido entre os trabalhadores e visitantes dos flutuantes de interação no baixo rio Negro, não só por ser um dos primeiros animais a interagir com as pessoas, mas também por apresentar torção na mandíbula, característica de vários exemplares velhos na espécie, e que o torna facilmente reconhecível.

Curumim é um boto macho, de cerca de 26 anos, com mais de dois metros de comprimento corporal e assíduo frequentador dos flutuantes “Flutuante dos Botos” e “Flutuante Amigos do Boto”. Ele é dócil, habituado ao contato com humanos e se aproxima também de embarcações e banhistas para receber peixe das mãos das pessoas.

Segundo relatos, um pescador ainda desconhecido teve a sua rede de pesca avariada pelo boto e, por retaliação, Curumim foi friamente arpoado, provavelmente em 17 de maio. O animal apareceu no dia 18 no Flutuante dos Botos com uma zagaia de ferro de 18 centímetros cravada em seu rosto, em uma área muito próxima ao olho esquerdo.

As proprietárias do flutuante, ao se depararem com o animal tão familiar em situação de grave risco, iniciaram o difícil trabalho para tentar salvá-lo. Inicialmente, contataram os servidores do ICMBio, acostumados a auxiliar nos resgates e cuidados aos animais silvestres da região. Porém, esse caso era diferente. Um ser com cerca de 150 quilos e aquático não é fácil de manejar ou medicar. Logo, uma rede de veterinários, biólogos e moradores locais foi formada para tentar ajudar Curumim. Os dias que se seguiram foram de apreensão e de muito trabalho.

Curumim começou a ser monitorado e medicado com antibióticos e anti-inflamatórios. O fato de ele estar acostumado a se alimentar com peixes oferecidos pela equipe do flutuante ajudou e a medicação passou a ser colocada dentro dos peixes jaraqui e cubio, bastante apreciados pelos botos. A expectativa e o objetivo da equipe era diminuir a dor e evitar infecção que pudesse levá-lo a óbito.

Enquanto isso, a estratégia para sua captura foi sendo montada. A cheia dos rios amazônicos, no entanto, era fator complicador e somente com uma equipe experiente e equipamentos adequados haveria alguma chance de sucesso. Além disso, a captura era somente um dos problemas, já que seria necessária uma arriscada cirurgia para remoção do arpão e limpeza e curativo da lesão.

Felizmente, depois de 14 dias acompanhando de perto e de cuidados, o arpão foi expelido, caindo sem que fosse preciso capturar Curumim. O ferimento ainda inspirava cuidados, mas apesar do inchaço e de aparente infecção superficial, o olho que se acreditava ter sido atingido parecia íntegro. Curumim ainda precisou ser medicado por mais uma semana e durante esse tempo, além dos remédios diários, a equipe de cuidadores se dividia para limpar o ferimento duas vezes ao dia.

Curumim, com a pureza e a elegância de um animal que carrega toda a mística amazônica, parecia perceber o esforço dos humanos que o ajudavam, permanecendo no local e aceitando os cuidados dispensados.

Dessa vez foi possível evitar maior tragédia, mas quantos Curumins serão necessários para que pescadores e pessoas que vivem da pesca e dos recursos aquáticos da região reconheçam a importância dessa espécie e passem a protegê-la como um patrimônio não só da Amazônia, mas de todos nós?

 

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